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Até sempre, Miguel!

O Miguel deixou-nos na passada terça-feira, na véspera do dia comemorativo da revolução que ele ajudou a construir. Partiu um grande amigo, um camarada, cujo exemplo me iluminará o caminho.

Tive o privilégio de conhecer o Miguel depois do 25 de abril, tinha ele cerca de dezassete anos e era, como eu, dirigente da União dos Estudantes Comunistas. Vivia-se, então, o processo revolucionário e a vida era vivida com intensidade, desde os afetos à intervenção política. A UEC funcionava como uma tribo, passávamos dias a fio juntos e muitas vezes dormíamos na sede em sacos cama ou cobertores. Acreditávamos que o processo era irreversível. A responsabilidade e o otimismo histórico andavam de mãos dadas...

Não sendo, por natureza, um rapaz muito dado a ortodoxias, o Miguel destacou-se, desde logo, pela sua capacidade reflexiva e crítica aliada a uma forma apaixonada de viver a intervenção política.

Desde o primeiro contato, impressionou-me a sua inteligência, o sentido de humor, a alegria contagiante, e a imensa cultura e capacidade de trabalho que pôs sempre ao serviço da transformação do Mundo.

O Miguel era assim, um homem de dimensão maior, um cidadão do mundo que lutou até ao fim por todas as causas em que acreditava. Pertence ao panteão dos que não cruzaram os braços, dos insubmissos, daqueles que se entregaram à política de forma nobre, sem ambicionar as mordomias do poder, motivados apenas pelos seus ideais.

A nossa amizade nasceu e alimentou-se do envolvimento político, estávamos permanentemente mobilizados para ‘o que desse e viesse’, mas também das longas noites de conversa sobre cinema, literatura ou a transformação dos costumes, temas nem sempre considerados importantes por muitos, porque a economia estava primeiro, depois logo se veria, era preciso canalizar as energias para as tarefas prioritárias.

Lembro-me de, com um frio de rachar, termos sessões de conversa sobre cinema em plena rua, em que tentava acompanhar as grandes passadas do Miguel, ou de, em casa de amigos, fazermos diretas até ao raiar do dia, sem sentir cansaço ou aborrecimento.

Claro que a postura do Miguel, a sua exuberância e antidogmatismo lhe trouxeram, ao longo dos anos, algumas incompreensões ao nível do aparelho partidário.

Houve tempos em que convivemos menos, eu passei para os seniores do PC e ele continuou no setor estudantil e, posteriormente, ambos nos afastámos do partido comunista. Apesar destes interregnos, os reencontros eram sempre vivos, carregados de afeto e cumplicidade.

Depois de uma longa travessia do deserto, em que me afastei de qualquer estrutura partidária, foi pelas mãos do Miguel que voltei a acreditar num movimento partidário e entrei no Bloco. Conseguiu contagiar-me com o seu entusiamo por este movimento que então surgia, do qual foi fundador, e que me desafiava a mim, também, a começar de novo.

A prolongada doença que ceifou a vida do Miguel aos 53 anos não o impediu de continuar a manter a atividade política como dirigente nacional do Bloco de Esquerda e deputado no parlamento europeu.

Sabíamos que a doença que o vitimou não tinha cura e que o desenlace seria, mais cedo ou mais tarde, inevitável, mas quisemos acreditar que a força anímica do Miguel conseguiria trocar as voltas ao destino e que ele iria vencer mais esta batalha.

 A notícia da sua morte deixou-me prostrada, mas tenho presente que o Miguel merece mais, que nos convoca a não baixar os braços, a prosseguir a luta, com lucidez e perseverança, a não desistir de contribuir para a construção de uma Esquerda Grande que torne possível a criação de um mundo mais justo e fraterno.

Até sempre, amigo! Obrigada por teres existido.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Professora.
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