Quem se lembrou do “problema dos três corpos”, certamente a partir da série chinesa e da Netflix que ficcionaram a questão suscitada por Kepler e depois Newton, para sugerir uma metáfora orientadora para a política portuguesa, fez um duplo mau serviço ao país.
Primeiro, criou confusão: se a transferência desse problema astronómico para o domínio da política fizesse sentido, então a conclusão seria pesada e mesmo contrária ao que nos sugerem, dado que ele é matematicamente irresolúvel para a maior parte das condições iniciais e conduz a trajectórias caóticas e portanto imprevisíveis (bastava ter visto as séries para notar este efeito). A ideia de que os três corpos se equilibram e dançam juntos é, no mais das vezes, uma fantasia tão amável quanto irrealizável. É mais fácil os três corpos conduzirem a uma incerteza radical e a caminhos surpreendentes do que a uma órbita estável. A “teoria” só distrai e não oferece nenhuma resposta: não tem solução e não é uma solução.
Em segundo lugar, a sugestão que decorre explicitamente da teoria dos “três corpos”, que seriam o PSD, o PS e o Chega, é que o PS apoie o governo do PSD em nome de afastar a extrema-direita do lugar da máxima influência política. Bem sei que a teoria foi evocada pelo efeito estético da metáfora e, sobretudo, para sugerir que o PSD apoiasse o PS no caso de este ser o partido mais votado ou, na versão mais benigna, que um virtuoso bloco central afastasse o Chega. A questão é que a teoria se aplica em todos os formatos e, sendo o PSD o partido mais votado, aprisiona os seus autores numa consequência inconsequente que oferece à direita o controlo da agenda política e, subordinado o PS, aliás sem grande dificuldade, permite a Montenegro um jogo de balancé entre os outros dois corpos. A teoria está a ser aplicada, é preciso constatá-lo, e quem agora manda é o PSD, certamente o primeiro a festejar a vantagem que os “três corpos” lhe oferecem. Pela mesma razão, pode gabar-se de ter estendido a casca de banana da revisão constitucional e de PS e Livre nela terem patinado, o primeiro a oferecer-lhe o orçamento a troco de nada e o segundo a propor-se para negociar tal revisão com a direita, uma pretensão desprezada olimpicamente pelos criadores da manobra de distracção.
Há ainda uma outra consequência da teoria que merece atenção. É que, se for aplicada na forma actual do tal bloco central, ou seja, da subordinação do PS ao PSD, a “teoria” conduz exactamente ao efeito contrário ao anunciado e é o melhor favor que esses partidos podem fazer ao Chega. É o que lhe permite estar e não estar na equação, comprometer e denunciar o “sistema” dos dois partidos previamente alternantes, fazer-se de responsável aqui e acolá e esperar a sua vez. Ora aí está: se é um sistema caótico que regula o país e que é proposto como a sua melhor solução, então o partido que pretende o caos bem pode esperar pela sua hora, que o “sistema” está a trabalhar para ele.
Este texto é parte da intervenção de Francisco Louçã no podcast “Um pouco mais de azul”, onde também participam o jornalista Fernando Alves e a poeta Rita Taborda Duarte. O podcast completo aqui