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A americanização da política

A prática dos Estados Unidos, da Itália, de França e de outros países mostra que as primárias não tratam de propostas e de programas mas de caras e de estilos. Cuidam do aspeto, não do conteúdo.

As eleições primárias no Partido Socialista para escolha do rosto dos outdoors do partido nas próximas eleições legislativas - na verdade dos factos, é isto ser "candidato a primeiro-ministro" - acentuam a tendência para a fulanização da representação política em Portugal. Assumem a americanização da política como resposta para a crise da democracia representativa, expressa desde logo num número sempre crescente de abstencionistas. É uma resposta equivocada, como aliás a própria experiência norte-americana em matéria de índice de participação popular em eleições demonstra cabalmente. A nossa democracia terá muito pouco a ganhar e muito a perder com esta fórmula.

O mais grave equívoco das eleições primárias é o de crer que elas serão um instrumento privilegiado para a reforma da vida dos partidos que os obrigue a abrir-se à sociedade. Paira sobre este raciocínio uma espécie de fantasma do BES que divide a cidadania em boa (a da sociedade imaculada) e má (a dos partidos por definição contaminados por um modo de ser tóxico). Mais, há nesta convicção uma confusão entre a responsabilidade - que é a dos partidos em democracia - de proporcionar escolhas claras e facciosismo. Um partido existe para representar setores sociais e bater-se por propostas que lhes deem voz. Para cumprir esta função, um partido dialoga com muita gente, ouve muitas opiniões, aprende com o saber técnico dos especialistas. Se não o faz, enfraquece o que propõe e a sociedade reconhece-o facilmente. Por isso, uma abertura à sociedade que permita trazer para a democracia setores sociais excluídos ou dar voz a ambições programáticas esquecidas é uma exigência indeclinável. Mas isso não tem nada que ver com competições de popularidade pessoal.

Ora, o que a prática dos Estados Unidos, da Itália, de França e de outros países mostra é que as primárias não tratam de propostas e de programas mas de caras e de estilos. Cuidam do aspeto, não do conteúdo. Alimentam-se do cânone mediático - Fulano "tem melhores condições para derrotar" Beltrano - em detrimento do escrutínio da substância das políticas. No limite, não tem de haver qualquer diferença efetiva entre o que propõem os "primariáveis", porque o que é importante é a sua popularidade definida sabe Deus por que critérios. Esperar que as primárias renovem os partidos é pois algo que decorre de uma visão para a qual eles servem primordialmente para dar pessoal político e não para dar escolhas políticas à democracia. Ver nos partidos meras agências de casting para as instituições é a americanização da política no seu pior. Fulanização é isto, é desistir de ter uma democracia em que os partidos são coletivos de proposta.

A americanização em curso da democracia representativa em Portugal dar-lhe-á porventura mais espetáculo mas tirar-lhe-á cada vez mais debate político substantivo, estreitando o espaço das escolhas. Se o propósito é reforçar e qualificar a nossa vida democrática, tomemos então dos Estados Unidos o melhor e não o pior que eles dão à democracia. E o melhor é a cidadania associativa, feita de movimentos militantes intervenientes nas redes de vizinhança ou nas comunidades locais, uma cidadania que confronta propostas e que vai a votos sobre a vida do dia--a-dia. É essa cultura de democracia participativa nos núcleos mais básicos da organização social que temos a aprender com a experiência norte-americana. Porque ela é o melhor dos antídotos para a rendição da democracia às oligarquias mediáticas e financeiras que a americanização da política traz no seu bojo.

Artigo publicado no jornal “Diário de Notícias” em 8 de agosto de 2014

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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