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Ah e tal, fazer da Crise uma Oportunidade

As manifestações que amanhã ocorrerão em todo o mundo são apenas um exemplo de que esta crise também consegue despertar consciências e gerar desenvolvimentos com alcances dificilmente previsíveis.

É normal que em momentos como o actual uma série de chavões e soundbytes vão ganhando relevo. O “fazer da crise uma oportunidade” é talvez um dos que assumiu particular destaque. Com ligeiras variantes, é repetido até à exaustão por um conjunto muito variado de opinion makers, particularmente aqueles que vêem no momento presente uma oportunidade singular para por ordem na casa. Ou seja, para acabar com o modelo de Estado-Providência com o argumento de que temos vivido acima das nossas possibilidades. Não é portanto necessário ser-se um horrendo esquerdista para se perceber que os sectores políticos mais à direita encaram esta crise como o ónus perfeito para fazer valer a sua visão do mundo.

Mas é também particularmente interessante verificar que sejam agora estes sectores da direita a mais utilizar o slogan da crise como oportunidade, quando é sabido que este tipo de visão até está tradicionalmente associada às teorias marxistas de transformação social. Como é sabido, estas sempre encararam os momentos de crise como momentos ímpares para, aproveitando a revolta popular e a predisposição para a mudança, impulsionar rupturas com o sistema vigente e conseguir grandes saltos em termos de progresso social e político. Não é por acaso que as crises são historicamente grandes impulsionadoras das revoluções.

Assim sendo, é natural que haja hoje grande apreensão entre os sectores da esquerda sobre as consequências da crise. Sobretudo num momento em que as opiniões públicas parecem semi-anestisiadas pelo discurso da austeridade. Os tempos não são os mais animadores, é certo. Mas, não querendo cair em clichés, importa não perder de vista a potencial de oportunidade que estes momentos de mudança encerram.

As manifestações que amanhã ocorrerão em todo o mundo são apenas um exemplo de que esta crise também consegue despertar consciências e gerar desenvolvimentos com alcances dificilmente previsíveis. Amanhã exige-se justiça económica, exige-se uma melhor democracia, exige-se a paz, exige-se até um mundo melhor. Retomam-se as conhecidas dinâmicas do “ser realista, exige o impossível” com uma vitalidade como há não se via. Tal é impulsionado por uma diversidade impressionante de movimentos sociais, vindos até dos sítios mais inesperados (veja-se o relevo crescente do movimento Occupy Wall Street).

Em suma, começa a ser tempo da esquerda exigir de volta uma máxima que é sua por natureza. Até porque começa a estar à vista de todos que as oportunidades não são assim tão desanimadoras no panorama actual.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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