Afinal, o que quer o FMI de Portugal?

porAndré Beja

02 de fevereiro 2011 - 0:14
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Teresa Ter-Minassian, que chefiou a delegação do FMI que negociou o empréstimo a Portugal na crise de 1983, deixa clara a agenda desta organização.

Numa entrevista recente ao Jornal de Negócios, Teresa Ter-Minassian, que chefiou a delegação do FMI que negociou o empréstimo a Portugal na crise de 1983, deixa clara a agenda desta organização (nada democrática) e dos mercados que a seguem, sustentam e justificam.

Sobre as medidas do plano de austeridade em curso, diz que “são muito corajosas” Mas há que fazer mais: “Portugal já fez um ajustamento nas pensões, mas não fez o suficiente na saúde”, esclarecendo que “ajudaria muito à credibilidade do ajustamento orçamental se o Governo tivesse uma estratégia clara para conter os custos na Saúde no futuro, que são o maior problema orçamental que Portugal enfrenta”.

Quem conhece minimamente o SNS, sabe que o que ele precisa é de mais investimento e que este, se for bem direccionado (e não torrado por alguns dos interesses instalados), terá um efeito positivo sobre a economia e, sobretudo, sobre o bem estar da população.

Mas o que esta senhora diz está muito certo, se visto pelo prisma do seu modelo económico e do seu pensamento sobre a função dos serviços de saúde.

No fundo, o que o FMI quer para o SNS é o que o PS tem feito de forma envergonhada, Passos Coelho promete fazer de forma radical e que Cavaco Silva, a avaliar pelo silêncio sobre o assunto que manteve durante a campanha, pode vir a permitir: Acabar com o Serviço Nacional de Saúde universal e “tendencialmente” gratuito e substituí-lo por um Sistema de Saúde que abre espaço de negócio para o sector privado, onde quem não tem dinheiro e seguros tem pouca ou nenhuma resposta - não me venham com essa conversa mole de que o Estado garante, porque o medicaid/medicare americanos estão aí para provar que não é assim.

E isso vai diminuir os gastos com saúde? As experiências dos últimos trinta anos, incentivadas ou não pelo FMI, mostram que não. Ou então que sim, mas com custos demasiado elevados para a sociedade.

E basta que olhemos para o “modelo FMI” por excelência: nos Estados Unidos os gastos com saúde não param de aumentar (em percentagem do PIB e no bolso dos consumidores) e os indicadores de saúde são dos piores entre os países ditos desenvolvidos.

Assim a resposta à pergunta de partida é: o FMI quer o bife do lombo, para servir no banquete dos seus accionistas.

Mas a resposta também pode ser: o FMI não quer nada de Portugal, é apenas uma desculpa, um pretexto, para as coisas avançarem no sentido pretendido pela classe dominante.

André Beja
Sobre o/a autor(a)

André Beja

Enfermeiro, doutorando em Saúde Internacional no IHMT/NOVA. Deputado municipal em Sintra, eleito pelo Bloco de Esquerda
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