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Adeus, Verão

É oficioso, a 4.ª vaga está a instalar-se e só não é oficial porque as entidades protocolares só a reconhecem ao sabor da marcha atrás. Muita coisa falhou.

A ideia do fim próximo e de que a pandemia seria aniquilada pelo ritmo da vacinação criou a convicção generalizada de que a fava já tinha saído ao passado. Os sinais dados foram incompatíveis. Comunicação contraditória entre PR e PM. Pouca vontade em rever a matriz e corte no teletrabalho. Displicência, cansaço, irresponsabilidade, turismo sem critério e negacionismo criminoso. Com tantos dados ao dispor, com tanta experiência acumulada, tínhamos obrigação de fazer muito melhor.

Do ponto de vista do poder, assistimos à pior gestão pandémica desde que a pandemia rebentou. Grande parte das pessoas sentiu que podia acabar com as regras a meio do jogo. Portugal reagiu como o porco-mealheiro que enche rápido sabendo que vai rebentar. Quisemos aproveitar o momento, deixar o turismo acumular-se aos magotes com regras próprias, criámos momentos de excepção e festas-covid-19 para estrangeiro ver. Recebemos uns trocos, acumulámos variantes, demos asas à economia e, agora, já em desespero de causa, recuamos no desconfinamento. Um absurdo. Para já, apenas regridem Lisboa, Albufeira e Sesimbra. Depois, mais uns quantos concelhos. Em breve, contaremos quantos se aguentam sem voltar a confinar ou sem voltar ao teletrabalho.

O encerramento do ano lectivo nas escolas pode ser um balão de ar que crie efeito travão, mas os piores números em quatro meses não mentem. Ontem, 1556 novos casos com 106 pessoas em UCI; no ano passado, 367 novos casos e 73 internados. Há um ano, toda a economia aberta, sem estado de emergência e com menos restrições. Agora, 57 surtos em lares e maior número de mortos. Se é esta mesma matriz que nos indica o descalabro, como mudar? A pressão hospitalar é menor e as variantes menos perigosas? Pelo contrário. A adequação da matriz faz sentido porque o conhecimento adquirido obriga à evolução. O limiar para a imunidade de grupo tem de ser repensado à luz das novas variantes. Neste momento, só temos cerca de 30% da população com a segunda dose de vacinação, momento a partir do qual há garantia de real eficácia contra a variante Delta, bem mais transmissível e perigosa. Olá, Verão, adeus, Verão. Com a variante Delta a ser prevalente em Agosto, a economia bem pode ir dizendo adeus à época.

Não é admissível que ainda não haja certezas sobre a influência que a festa leonina e o arraial em Lisboa (ou a final da Champions no Porto) tiveram na progressão dos números pandémicos. Não é possível ouvir as declarações de Merkel sobre a permissividade lusa, sem lhe reconhecer razão. Devíamos corar de vergonha pela forma insultuosa e ingerente na política de saúde pública britânica, como reagimos ao anúncio de Boris Johnson de retirar Portugal da lista verde. Quando é o próprio Marcelo que garante que "não vamos andar para trás" no estado de emergência e vemos outro confinamento a bater à porta, o que sabemos nós de emergência quando passamos a pandemia a correr atrás do prejuízo?

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 25 de junho de 2021

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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