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20 anos de saudade

Na noite de 4 de março de 2001 eu perdi um tio que era um segundo pai. Saiu e não voltou, o corpo não apareceu. Da freguesia da Raiva, de onde somos, foram 34 das 59 vítimas.

Passaram 20 anos e ainda não me é fácil falar sobre o que aconteceu. Aliás, hesitei muito antes de escrever estas linhas. Consigo reconhecer agora que nunca soube lidar bem com o assunto. Durante muito tempo fui evasivo nas respostas, procurava mudar de assunto, era a porta que não queria abrir. Agora percebo que não faz sentido calar mais. Não é que tenha muito para dizer, já não quero deixar cá dentro.

Na noite de 4 de março de 2001 estava em casa dos meus pais. Na altura estudava no Porto e, como em qualquer domingo à noite, passava os olhos por um livro à espera do sono. Quando o telefone tocou, a notícia chegou alarmada, mas sem grande conteúdo. Alguma coisa tinha acontecido em Entre-os-Rios, não se sabia bem o quê. O meu tio estava num autocarro, tinha ido na “excursão” e ainda não tinha chegado, será que estava tudo bem?

Saí alvoroçado, fui a caminho da aldeia vizinha onde passava a estrada nacional e as notícias chegavam mais rápido. Lá, em Oliveira do Arda, todos tinham o mesmo pressentimento, mas ninguém tinha grande informação. Na rádio dizia-se que a ponte tinha caído, que podia ter levado um autocarro ao abismo. Não se conseguia comunicar com ninguém, os telemóveis não funcionavam – nem os havia como hoje. E a notícia era tão absurda que ninguém conseguia acreditar. Tentavam-se novamente os telemóveis, as zonas sem rede eram (e são) muitas naquela zona, poderia ser esse o problema. Mas nada, nada e o tempo continuava a passar.

Ouviu-se um autocarro a chegar, seriam eles? Não eram. Tinha feito outra “excursão”, vinha já não me lembro de onde. E estava vazio. Tentávamos todos fugir daquela realidade. Conhecíamos bem quem tinha ido na viagem, nas terras pequenas é assim, toda a gente se conhece pelo nome, era impossível o que nos estavam a sugerir. O mundo também desabava aos nossos pés. Da freguesia da Raiva, de onde somos, foram 34 das 59 vítimas.

Regressei à minha aldeia, Serradelo, e fui direto à casa dos meus avós que também era a do meu tio. O pânico tinha-se instalado. Como dizer a um pai que perdeu o filho? “Isso não é natural”, respondeu o meu avô, nenhum pai devia viver mais do que os seus filhos. E nem um corpo para velar. Essa dor também mata, matou o meu avô. Desistiu e faleceu poucos dias depois.

O meu tio Virgílio era um dos pilares da família. Tinha sido carpinteiro de cofragem durante a juventude, lá pelas bandas do Porto. O maior orgulho desses tempos foi o da reconstrução da Faculdade de Ciências, depois do incêndio de 78 – ele garantia que do telhado se conseguia ver a minha aldeia, coisa que nunca consegui confirmar mas me pareceu duvidoso quando lá estudei 20 anos depois. A vida deu a volta e não conseguiu fugir ao destino: coube-lhe dar continuidade ao negócio de família, a produção de doces regionais, os “Doces de Serradelo”. Era ele quem tratava do enorme forno, ainda e sempre a lenha, parte importante daquele paladar único.

Falei-vos da minha dor, mas não é a única, apenas a que conheço melhor. Não vos falei da revolta por a culpa morrer solteira e a justiça continuar vazia, o tempo já não é para isso

Da juventude trouxe o bichinho da política, que lhe mordeu e nunca o deixou em paz. As minas do Pejão eram ali ao lado, e a história já nos ensinou que a luta do homem com as entranhas da terra dá força à organização de quem trabalha. E o Virgílio tinha o coração bem à esquerda. Com a mesma naturalidade com que me ensinou a conduzir, explicava a dialética da vida, que as lutas eram entre classes, sempre bem disposto e com um cigarro na mão.

Há mais 58 histórias que ficaram sem continuação porque a ponte não os deixou chegar ao outro lado. Falei-vos da minha dor, mas não é a única, apenas a que conheço melhor. Eu perdi um tio que era um segundo pai. Saiu e não voltou, o corpo não apareceu. Ainda cheguei a ser chamado para ver uma fotografia desfigurada, tirada nas praias da Galiza, mas não era ele, soube depois que era da aldeia da Raiva. Não vos falei da revolta por a culpa morrer solteira e a justiça continuar vazia, o tempo já não é para isso.

O David Pontes não deu toda a informação no que ontem escreveu. De Castelo de Paiva também dá para ver o mar, do cimo do Monte de S. Domingos. Tem, aliás, um dos mais bonitos pôr-do-sol que eu conheço, por alturas do mês de maio, em que se vê o sol desaparecer ao longe na água salgada. Mas não tinha amendoeiras em flor…

Artigo publicado no jornal “Público” a 5 de março de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputado, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, matemático.
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