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17 de maio ou o tiro pela culatra

É já lendário o conservadorismo da autarquia lourense, assim como a tendência para se “esquecer” de cumprir deliberações da Assembleia Municipal.

Podia fazer parte de um qualquer número de stand-up comedy, desses que agora estão na moda, não fosse o caso de não ter graça absolutamente nenhuma. Passou-se em Loures, concelho que começa a ser pródigo em episódios insólitos e alimento de muita comunicação social, em plena sessão da Assembleia Municipal. Mas, nada como ir direto ao assunto.

A bancada da CDU, certa de ir fazer um brilharete com um tema que, historicamente e por norma, não faz parte do seu ADN político, tentou piscar o olho à comunidade LGBT+, lançando para o debate uma moção a saudar o 17 de maio, cheia de expressões bonitas como “sensibilizar”, “incluir”, “combater a discriminação” e outros clichés mais ou menos rebuscados.

O que a deputada municipal do partido “Os Verdes” se esqueceu (ou talvez não) foi que o executivo municipal liderado por Bernardino Soares fez tábua rasa de uma deliberação da Assembleia Municipal (na qual o seu partido se absteve), ignorando olimpicamente o Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia e Transfobia.

A deliberação, que recomendava, entre outros, o hastear da bandeira arco-íris no edifício sede da Câmara Municipal de Loures, nos Paços do Concelho, foi apresentada pelo Bloco de Esquerda e aprovada a 7 de setembro passado, com os votos favoráveis do PS, a abstenção da CDU e do MRPP e os votos contra de PSD e CDS.

Mas o edil parece ter-se esquecido de assinalar a data no calendário do Google e o dia passou-lhe completamente ao lado. Nem bandeira, nem qualquer tipo de evento ou iniciativa que fizesse sequer menção à importante data a assinalar. Zero, nada de nada.

Confrontado pelo eleito do Bloco de Esquerda com este “esquecimento”, e com a sagacidade que lhe é reconhecida, o responsável máximo da autarquia lourense lá se apressou a aludir aos “protocolos do hastear e recolher de bandeiras” para justificar aquela “branca”.

Ora, como é sabido, os “protocolos” não foram obstáculo noutros municípios, nomeadamente na Câmara Municipal de Lisboa, onde a bandeira arco-íris foi hasteada e o dia assinalado com a notoriedade que merece.

Ainda assim, a moção da CDU foi aprovada por maioria, como não podia deixar de ser, mas não deixou de provocar um “amargo de boca” significativo nas hostes comunistas. Uma espécie de sensação “mais valia ter estado calada”, misturada com um “uuupssss” com muitos pontos de exclamação.

É já lendário o conservadorismo da autarquia lourense, assim como a tendência para se “esquecer” de cumprir deliberações da Assembleia Municipal. Mas, apresentar uma moção para assinalar uma data que a própria Câmara optou por ignorar é quase tão inédito como propor uma deliberação e depois votar contra ela. Como diz o povo, desta vez, “o tiro saiu pela culatra”!

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
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