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11 teses sobre a política no tempo das redes sociais

Na sociedade de informação do século XXI, democratizar os algoritmos é para a democracia o que foi a reivindicação do sufrágio universal no século XIX.
  1. A rede social é entretenimento. As pessoas buscam um lugar para passar o tempo, para inspirar-se, emocionar-se, saber o que estão “os outros” a dizer e a fazer. Prova disso são os vídeos com histórias emotivas, os memes que nos fazem rir, os vídeos de gatos, enfim, os conteúdos. Uma ação política nas redes que evita ser parte desse entretenimento, pelo menos em parte do tempo, foge das pessoas. Sejamos menos sérios, mesmo com assuntos sérios.
  2. Em todas as redes, os utilizadores mais ativos e influentes continuam a ser os jovens. Os jovens de hoje, os millenials ou a geração z, que nasceram já com computadores ou telemóveis na mão, são hoje quem tem maior facilidade de navegação nas redes. Esta geração é, simultaneamente, a primeira de muitas gerações que, no mundo ocidental, viverá pior do que os seus pais. Isto acontecerá, apesar de tudo o que lhes disseram. É, portanto, uma geração frustrada porque precária, que se sente injustiçada porque não cabe no que o mercado tem para oferecer, porque o neoliberalismo lixou-lhes a vida.
  3. Os utilizadores são quem define o uso da rede social. O Twitter estabeleceu que a comunicação se faria com mensagens de 140 carateres mas rapidamente os utilizadores criaram por si o conceito de thread. Com o encadeamento de tweets em resposta a tweets anteriores, constroem uma história, uma narrativa. Mais tarde, o Twitter acabou por alargar o limite de caracteres, mas as threads nunca desapareceram. O mesmo aconteceu com o hashtag (#), ideia criada por um utilizador da rede.
  4. Não há fórmulas mágicas. O que pode funcionar num dia, pode falhar redondamente no dia seguinte. Isto acontece, em parte, devido às mudanças de algoritmos envoltos em secretismo mas também porque a rede é um espelho da sociedade. Não há fórmulas mágicas.
  5. As redes são violentas. A rede social é tão influente porque é um espaço onde se exerce violência. A violência nas redes expressa-se em termos de pressão e questionamento dos valores do indivíduo: a auto-estima, a credibilidade, a fama. Pode-se questionar a reputação e os egos dos atores públicos, assim como a ética e a credibilidade dos atores intocáveis (media e partidos).
  6. As redes sociais entram sem pedir licença. A internet e as redes trouxeram consigo uma perda de intimidade. Como em muitos casos fez a imprensa através dos “paparazzi”, agora a rede social é um espaço de exposição do que é privado.
  7. As redes reconceptualizam, portanto, o prestígio. Nas redes desaparece o respeito e, consequentemente, o prestígio. O respeito está unido ao nome, mas o anonimato e respeito excluem-se um ao outro. A comunicação anónima, que é fomentada pelos media digitais, destrói massivamente o respeito. Por trás de um ecrã, todos podem ser anónimos.
  8. Desaparece o futuro como tempo político porque as redes são impacientes. A transparência total impõe à comunicação política uma temporalidade que impossibilita um planeamento lento, a longo prazo. A gestão de silêncios, tão cara a quem sempre fez política, torna-se insuportável quando a transparência é total. As redes destroem a paciência e obrigam à assunção de um ritmo surreal para a ação política ponderada.
  9. As redes não são um lugar democrático (ainda que o pareça). Acontece às redes o mesmo que acontece ao mercado: parecem espaços de livre intercâmbio onde se realizam transações de igual para igual com base na oferta e na procura. Mas é mentira: nem todos podem entrar no mercado, nem os assalariados podem escolher trabalhar nem as condições em que o fazem.
  10. A rede social tem uma relação polarizada com os media tradicionais. Com a televisão e rádio, por exemplo, onde o utilizador se entrega numa relação passiva de comunicação unilateral, existe naturalmente um maior domínio e poder por parte de quem transmite a informação. Pelo contrário, nas redes sociais o utilizador não só tem parte ativa como escolhe, seleciona, filtra a informação que recebe, que divulga e sobre a qual opina, manipulando e enviesando informação conforme a relação emocional que estabeleceu ou que pretende incutir em terceiros. Fruto desta descentralização do poder na distribuição de informação, surgiu o fenómeno das fake news.
  11. Precisamos democratizar as redes. Tendo em conta que está demonstrada a influência em processos tão sensíveis que afetam as normas e o futuro da nossa rede social, seria razoável que existisse um processo de transparência nos algoritmos que utiliza o Facebook, de igual forma como acontece em outros assuntos de especial relevância social como, por exemplo, a saúde pública. Na sociedade de informação do século XXI, democratizar os algoritmos é para a democracia o que foi a reivindicação do sufrágio universal no século XIX.

Inspirado no livro de Juanma Del Olmo (2018)

Sobre o/a autor(a)

Gestor de redes sociais, investigador em comunicação política.
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