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“Não nos resignamos”

O presidente da República não poderia estar mais certo quando, na habitual mensagem de ano novo, afirmou que o povo português não se resignará. 2012 será um ano de lutas decisivas por aqueles que são os pilares da nossa democracia.

Cavaco Silva tinha a lição bem preparada quando gravou a sua mensagem de ano novo transmitida este domingo.

Uma das palavras a ser estrategicamente utilizada foi a palavra “inevitável”. Já estamos bastante habituados à mensagem da inevitabilidade. A ajuda externa era inevitável, os memorandos de entendimento firmados com a troika eram inevitáveis, as medidas de austeridade são inevitáveis. Perante todo este panorama de uma imensa conjugação de inevitabilidades, o presidente da República explica aos portugueses que apenas nos resta “manter a coesão nacional” e cumprir os compromissos assumidos com Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.

“Somos todos responsáveis”, realçou Cavaco Silva, numa tentativa de branquear a responsabilidade daqueles que, de facto, criaram esta crise. Como se Portugal não estivesse a pagar até hoje a fatura decorrente do longo período durante o qual o atual presidente assumiu o comando do governo e abriu caminho ao esvaziamento do Serviço Nacional de Saúde, apostou num modelo de mão de obra barata, de baixas qualificações, arruinou a produção nacional e desbaratou os fundos comunitários.

O presidente da República assegurou que estará sempre ao nosso lado, e que terá sempre uma “palavra de solidariedade e de esperança”. Sim, é exatamente isso, e apenas isso, que esperamos do chefe de Estado português. Palavras de solidariedade e de esperança enquanto nos reduzem os salários, nos obrigam a trabalhar gratuitamente, nos retiram os subsídios de férias e de Natal, facilitam os despedimentos, aumentam a eletricidade o gás, condicionam o acesso à saúde, aumentam o custo dos transportes, privatizam bens e serviços essenciais e, simultaneamente, enchem os cofres da banca e dos grandes grupos económicos.

Cavaco Silva sublinhou que não nos resignaremos. Sim, tem toda a razão. Porque as nossas vidas valem mais do que as fortunas deles e porque sabemos que quem nos meteu na crise não nos tira dela.

Em 2012, travaremos, todos e todas, lutas decisivas em defesa da escola pública, do acesso à saúde, do emprego, da segurança social, lutas contra este modelo de Estado mínimo e de direitos mínimos que põe em causa os pilares da nossa democracia.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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