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É da liberdade que têm medo

Toda e qualquer autonomia da cultura é um alvo a abater.

A Direção Geral das Artes escreveu ontem uma carta às estruturas de criação e produção artística com financiamento plurianual a informá-las que teriam cortes de cerca de 40%, um corte muito maior do que qualquer outro setor, e que deixará milhares sem emprego e milhões sem acesso à arte. E diz mais a carta, que nada diz sobre as consequências dos cortes e tudo sobre o medo que o Governo tem da arte: diz também que cada corte seria negociado com a administração individualmente. Ou seja, os resultados de concursos públicos deixam de valer. Qual júris, qual candidaturas, qual ordenação. É a Direção Geral das Artes que chama a si, estrutura a estrutura, criador a criador, e decide como distribuir cada migalha: a política do príncipe e do favor sem pudor nem meias palavras.

No património, a Secretaria de Estado da Cultura ensaia uma Direção Geral sem ouvir os órgãos consultivos, destruindo as cadeias de decisão autónoma e técnica. Nos Teatros Nacionais também uma gigantesca estrutura centralizada tomará conta de tudo e a programação, o Secretário de Estado já o afirmou com todas as letras, terá de ser discutida com a tutela. Toda e qualquer autonomia da cultura é um alvo a abater.

Sem financiamento público, sem mecanismos para angariar novos financiamentos – veja-se a vergonha de adiar novas formas de financiamento do Cinema, que o tirariam da asfixia sem custar um cêntimo ao Estado – e sem autonomia, tenta abafar-se a Cultura. A arte e o património querem-se pequeninos, fechadinhos nos seus guetos, bem longe do povo, bem comportados e controlados, pois claro, que é da liberdade que eles têm medo.

E bem podem ter medo, porque terão resposta. Uma tem data marcada; já no dia 24 com a Greve Geral1, onde a voz de quem faz da arte, do património e da cultura profissão terá de se fazer ouvir. Outra está sempre presente e renova-se, soco no estômago permanente das hipocrisias austoritárias2. Muitas outras surgirão.

1 Está já marcada, em Lisboa, concentração às 14h30 no Marquês, e no Porto às 21h30 no Teatro Carlos Alberto

2 A propósito, acabou de inaugurar no Porto a exposição “Retratos de Pobreza” de Paulo Pimenta

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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