A guerra não declarada de Obama contra o Paquistão

09 de julho 2009 - 14:10
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Um "drone" predatorO jornalista independente Jeremy Scahill, autor do blogue Rebel Reports, descreve como a nova administração Obama está a utilizar os ataques dos drones [aviões-robot não tripulados] Predator para expandir radicalmente a guerra dos EUA no Afeganistão até ao Paquistão. Nos primeiros 99 dias de 2009, pensa-se que mais de 150 pessoas tenham sido mortas por esses ataques de drones.

Três dias após a sua tomada de posse, em 23 de Janeiro de 2009, o presidente Barack Obama ordenou que os drones Predator dos EUA atacassem locais no interior do Paquistão. Pensa-se que este ataque tenha causado a morte de 15 pessoas. Tratou-se do primeiro ataque documentado, ordenado pelo novo comandante em chefe, no interior do Paquistão.

Desde que Obama autorizou esse primeiro ataque, os EUA bombardearam regularmente o Paquistão, matando um grande número de civis. O New York Times relatou que os ataques eram uma clara evidência de que Obama "estava a continuar, e em alguns casos a alargar, a política da administração Bush". Nos primeiros 99 dias de 2009, pensa-se que mais de 150 pessoas foram mortas por esses ataques de drones. Desde 2006, Os ataques de drones dos EUA mataram 687 pessoas (até Abril). O que corresponde a cerca de 38 mortes por mês, apenas devidas aos ataques com drones.

A utilização destes ataques de drones por Obama não deveria constituir uma surpresa para alguém que tenha seguido a sua campanha com atenção. Enquanto candidato, Obama deixou claro que a soberania do Paquistão devia subserviência aos interesses dos EUA, afirmando que atacaria com ou sem a aprovação do governo paquistanês.

Obama disse que se os EUA tivessem "informações seguras" de que alvos de "alto valor" estavam no Paquistão, os EUA os atacariam. A secretária de Estado Hillary Clinton fez eco destes sentimentos no decurso da campanha, e "não excluiu ataques dos EUA no interior do Paquistão, citando os ataques com mísseis que o seu marido, o então presidente Bill Clinton, ordenou contra Osama bin Laden no Afeganistão, em 1998. "Se tivesse informação segura de que Osama bin Laden ou outros alvos de alto valor estavam no Paquistão, faria o necessário para que eles fossem atacados e mortos ou capturados", disse ela.

No fim de semana passado, Obama concedeu a sua primeira grande entrevista a um órgão de informação paquistanês, o jornal Dawn.

Respondendo a uma pergunta sobre os assaltos de drones a zonas tribais do Paquistão, o senhor Obama disse não comentar operações específicas. "Mas dir-vos-ei que não temos qualquer intenção de mandar tropas dos EUA para o interior do Paquistão. O Paquistão e os seus militares estão a tratar dessas questões de segurança".

Esta breve resposta de Obama levanta um certo número de questões. Em primeiro lugar, a única diferença entre recorrer aos ataques com drones ou usar os próprios soldados dos EUA no terreno, é de que os soldados são seres vivos. Os drones higienizam a guerra e diminuem os mortos dos EUA, não deixando de lançar um inferno militar desproporcionado sobre civis.

O essencial é que o uso de drones dentro das fronteiras do Paquistão conduz à mesma violação de soberania que a que resultaria do envio de soldados dos EUA para o interior do país. Obama defende os ataques na entrevista do Dawn dizendo:

O nosso primeiro objectivo é sermos um parceiro e um amigo do Paquistão, permitir ao Paquistão tomar as suas próprias decisões, respeitar as suas tradições, respeitar a sua cultura. Queremos simplesmente assegurar-nos que os nossos inimigos comuns, que são extremistas que matam civis inocentes - que esse tipo de actividade é detido, e acreditamos que tem de ser detido, seja nos EUA ou no Paquistão ou em qualquer parte do mundo.

Apesar dos comentários de Obama sobre respeitar o Paquistão, nos "termos definidos por este", eis como a Reuters descreveu recentemente o acordo entre o Paquistão e os EUA a respeito dos ataques com drones:

O Paquistão, aliado dos EUA, põe objecções aos ataques com mísseis, dizendo que eles violam a sua soberania e minam os esforços para controlar os activistas, porque inflamam a opinião pública e aumentam o apoio a esses activistas.

Washington afirma que os ataques com mísseis são levados a cabo ao abrigo de um acordo com Islamabad que permite aos líderes paquistaneses criticarem publicamente os ataques. O Paquistão nega que tal acordo exista.

O Paquistão é hoje um dos maiores beneficiários da ajuda dos EUA, tendo a Câmara dos Representantes aprovado recentemente que o apoio ao Paquistão triplicasse, atingindo 1,5 mil milhões de dólares por ano nos próximos 5 anos. Além disso, as Forças Especiais dos EUA já operam no interior do Paquistão, ao longo da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, no Baluchistão. De acordo com o Wall Street Journal, as Forças Especiais dos EUA estão:

"a treinar Corpos de Fronteira paquistaneses, uma força paramilitar com a responsabilidade de combater os talibãs e os combatentes da al-Qaeda, que passam livremente entre o Paquistão e o Afeganistão, dizem os oficiais. Os monitores americanos não lutam ao lado dos paquistaneses nem os acompanham na batalha, em parte porque há muito pouco pessoal das Forças especiais nos dois campos de treino."

Um oficial de alta patente americano disse esperar que Islamabad vá gradualmente permitindo que os EUA expandam a sua pegada de treino dentro das fronteiras do Paquistão.

Em Fevereiro, o New York Times relatou que as forças dos EUA estavam também envolvidas noutras actividades no interior do Paquistão:

"As tropas das Operações Especiais americanas com base no Afeganistão levaram a cabo missões nas zonas tribais do Paquistão desde o início de Setembro, quando um raide de comandos, que matou vários militantes, foi publicamente condenado por oficiais paquistaneses. De acordo com um oficial superior americano, as missões de comandos desde Setembro destinaram-se primariamente a recolher informações."

É claro - e é-o há muito tempo - que a administração Obama está a expandir a guerra do Afeganistão para o interior do Paquistão. Seja através de conselheiros militares dos EUA (era também o que lhes chamavam no Vietname), ataques de drones ou raides de comandos no interior do país, os EUA estão profundamente envolvidos militarmente no Paquistão. O que torna o comentário de Obama de que não "tem intenção de enviar tropas dos EUA para o Paquistão" simplesmente inverosímil.

 

Para ter uma ideia como as operações dos EUA são significativas, e como o continuarão a ser nos próximos anos, basta olhar para o plano dos EUA de construir uma massiva "embaixada" de mil milhões de dólares em Islamabad, tendo por modelo a cidade imperial a que chamam embaixada dos EUA em Bagdade. Como hoje é claro no Iraque, um tal complexo resultará no imediato aumento do empenhamento de soldados americanos, mercenários e outros agentes.

25 de Junho de 2009

Publicado originalmente em Rebel Reports.

Tradução de José Pedro Fernandes