«O Chile é ainda uma democracia vigiada», disse o escritor Luis Sepúlveda na entrevista concedida à jornalista Geraldina Colotti do diário italiano Il Manifesto, aproveitando a estadia de Sepúlveda em Itália para apresentar a sua última colectânea de contos ("A lâmpada de Aladino").
Por Geraldina Colotti, Il Manifesto
Nas recentes eleições municipais, a direita conseguiu a maioria dos lugares, e trata agora de pôr-se à frente dos protestos contra o governo. Que sucederá de aqui até às próximas eleições presidenciais de 2009, em que Michele Bachelet não poderá candidatar-se?
Não creio que a direita seja muito forte. O que aconteceu nas municipais foi mais o facto de que uma esquerda que durante tantos anos não pôde participar no jogo político ter demonstrado ter uma enorme importância. Durante a ditadura, um terço da população esteve arredada do jogo político, não tinha direito a ter candidatos ao parlamento, enquanto agora tem 30% dos representantes eleitos, e se considerarmos que, de toda a população chilena, só votaram 52%, quer dizer que só uma minoria não está de acordo com as mudanças em curso1. Na verdade, a democracia chilena é una democracia vigiada: não pelos militares, mas por uma constituição herdada da ditadura. Nestes 18 aos, ninguém teve a coragem de modificá-la através de um referendo, como desejavam os cidadãos, e como seria preciso para finalmente culminar o que se veio a chamar a transição para uma democracia plena. Hoje sabemos todos que essa é a força política da direita e dos "reciclados" que negociaram com a ditadura o fim do governo ditatorial de Pinochet, aceitando a condição de que o modelo chileno, assente na injustiça absoluta, não fosse modificado. O Chile é um país sem escola pública, porque a escola foi privatizada, tal como a saúde. Se tens dinheiro, tratas-te, se não, morres. A inflação avança, mas o Chile não é ainda um país em crise; no entanto o crescimento económico só beneficiou uma parte da população, e continuamos a ser um país economicamente dependente.
Também a política para os indígenas mapuches foi estabelecida tendo por base as leis de emergência aprovadas por Pinochet, y só agora parece vislumbrar-se algum assomo de abertura por parte de Bachelet.
Tenho uma grande simpatia pelo movimento mapuche, que encarna a defesa do direito natural à terra, ainda que seja evidente que, no ponto em que hoje estão as coisas, não se possa regressar à situação anterior à colónia. Mas creio que aceitar algumas reivindicações culturais e políticas dos mapuches é um bom ponto de partida para mudar as coisas. Neste sentido, a esquerda tradicional tem ainda que percorrer um bom caminho para combater o desinteresse pela política institucional expresso por uma grande parte dos movimentos, assim como para assumir os contributos positivos procedentes desses movimentos. Muitíssimo do que há de positivo que ocorreu no Chile desde o fim da ditadura é fruto do movimento altermundialista reunido no Fórum Social Chileno, que conservou a cultura política de uma parte da sociedade e manteve o diálogo com o movimento indígena, que estimulou as lutas pelos direitos das mulheres, dos gays e que hoje se bate contra a ofensiva conservadora da Igreja católica.
Domingo passado houve eleições municipais na Venezuela. Como avalia a "experiência bolivariana" de Hugo Chávez, em que participa também o indígena Evo Morales?
Evo parece-me uma figura respeitável, um dirigente indígena e cocalero [plantador de coca] votado democraticamente por 70% da população do seu país. Mas não acredito no assim chamado projecto bolivariano. Leu porventura o documento fundador? É uma grosseira simplificação da história da América Latina, é a negação da complexidade da história e da realidade, e quando se nega a complexidade das coisas, acaba-se sempre mal. Além do mais, creio que esta ideia de socialismo bolivariano é mais interessante para a população urbana de Caracas do que para uma população amazónica que vive numa espécie de comunismo primitivo.
Na Constituição bolivariana dá-se muita atenção à questão indígena.
Lamento, mas a mim parece-me um manual para escuteiros. As constituições sérias são as de Andrés Bello, pai de todas as constituições: Chile, Argentina... Além do mais, o livrinho tem 1200 páginas!
Mas essas constituições ficaram pelo papel. Hoje, pelo contrário, vêem-se factos: as nacionalizações, o regresso da soberania popular, a participação...
... E a demagogia de Chávez. O presidente do Equador, Correa, esteve à beira de perder as eleições devido à intromissão de Chávez; e teve de o travar. E o presidente do Paraguai, Lugo, enviou de urgência uma delegação a Caracas, mandando dizer a Chávez: rogo-te que te abstenhas de mencionar o Paraguai, porque na verdade tenho possibilidades de ganhar. Chávez é uma figura complexa, de acordo, mas não posso esquecer-me de que é um militar, e eu não tenho simpatia por nenhum militar latino-americano.
Mas a história do exército na Venezuela não passou pelo treino nas escolas de tortura dos Estados Unidos.
É verdade, mas prefiro pensar numa América Latina que tem em conta a sua própria diversidade e desenvolve em cada país linhas de acção autónomas.
Publicado originalmente em Sin Permiso .
Tradução de José Pedro Fernandes
1 As eleições municipais do Chile realizaram-se a 26 de Outubro de 2008. O Chile está dividido em 346 comunas, administradas por uma municipalidade, composta por um alcalde e um concelho municipal, formado por 6, 8 ou 10 deputados municipais, dependendo doo número de eleitores do município. Apresentaram-se as seguintes candidaturas: a Aliança pelo Chile, de centro-direita, teve 40,56% dos votos; a Concertação Democrática, de centro-esquerda, que reúne os partidos Democrata Cristão e o Socialista, teve 28,71% dos votos; a lista dos Independentes (Fora de Pacto) teve 10,20% dos votos; a Concertação Progressista, que reúne o Partido pela Democracia e o Radical Social-Democrata, teve 9,75% dos votos; a lista Juntos Podemos Mais, de esquerda (que agrupa o Partido Comunista do Chile, a Esquerda Cristã, o Partido Humanista do Chile e o Movimento Amplio Social, obteve 6,36%; a lista Por um Chile limpo teve 4%: e a Força do Norte 0,38%.