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Sobreviventes - o outro lado da agricultura no Alentejo

Fotogaleria de Paulete Matos com os trabalhadores imigrantes nas explorações agrícolas no distrito de Beja, acompanhada das palavras de Alberto Matos, dirigente da Solidariedade Imigrante naquela região. Publicada na revista Esquerda, já nas bancas.


Vieram de todos os continentes, da longínqua Ásia e da Europa de Leste, das Américas e dos confins de África. Fintaram a morte cruzando mares e desertos, empilhados em pateras, pendurados num trem de avião ou em encerrados em contentores frigoríficos.

Durante anos ficam a pagar o tributo a diversas máfias pelo «privilégio» de serem explorados em solo europeu e pela sorte de não terem morrido pelo caminho…

Estórias de vida partilhadas entre milhares de assalariados agrícolas que labutam de sol a sol nos perímetros de rega do Mira e do imenso Alqueva, dominado por seis fundos internacionais – os novos donos do Alentejo…

O novo latifúndio de regadio raramente contrata diretamente trabalhadores; prefere alugar à tarefa, ao dia ou à hora, uma mão de obra abundante e desprovida de direitos, disponibilizada por empresas de trabalho temporário ou «prestadoras de serviços». São empresas constituídas «na hora» e que se podem evaporar num minuto, deixando os trabalhadores «pendurados», sem descontos para a segurança social ou mesmo sem salários.

No Alentejo prolifera o trabalho escravo no século XXI que, segundo a ONU e a OIT, se aplica a «qualquer sujeito que trabalhe forçado, por dívidas, em situação degradante e em jornada exaustiva».

O combate a esta realidade é essencial para devolver autonomia e liberdade a estes trabalhadores – obter documentos é o primeiro degrau de acesso à cidadania e representa uma espécie de carta de alforria.

Vítimas de exploração laboral, em casebres ou empilhados em contentores,  carregados para o trabalho em veículos miseráveis – tudo religiosamente descontado nos salários; no fim do mês, sempre atrasado, restam 200 ou 300 euros…

As caras sulcadas destes sobreviventes têm a marca dum esforço épico para mudar de vida, carregam o peso de famílias ou aldeias inteiras que, na miragem do eldorado europeu, venderam tudo (casas, campos, gado…) e investiram nos seus filhos mais aptos para a grande viagem. Eis o síndrome do imigrante falhado que os impede de olhar para trás, preferem enfrentar a morte de olhos abertos.

Palavras de uma patroa: «Estou farta de imigrantes que não valem nada» mas já lhe deram milhões a ganhar…


Paulete Matos é fotojornalista.

Alberto Matos é dirigente da delegação do Alentejo da Solidariedade Imigrante.

 

6 de Abril, 2020 - 16:42h