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Ser rico ou ser pobre, está na essência!

Para o mayor de Londres, Boris Johnson, quem é mais pobre tem menos QI, quem é rico é-o, obviamente, pela sua inigualável inteligência! Este tipo de argumento não é novo.

Há uns dias circulou um artigo de jornal sobre o essencialismo de classe. Esse artigo inspirava-se nas controversas declarações do mayor de Londres que atribuiu a desigualdade social às diferenças de QI. Elaborando a ideia, acha o mayor de Londres, Boris Johnson, que quem é mais pobre tem menos QI, quem é rico é-o, obviamente, pela sua inigualável inteligência!

Este tipo de argumento não é, aliás, novo. Pelo contrário, ele surpreende exatamente por ser tão velho e supostamente desusado. Num ótimo livro chamado a Falsa Medida do Homem, Stephan Jay Gould faz-nos uma pequena retrospetiva sobre o racismo científico; isto é, sobre teorias e estudos supostamente científicos, utilizados ao longo da história, para justificar as desigualdades sociais, diferenças de tratamento, desigualdade perante a lei, etc. É, novamente, o essencialismo!

Stephan Jay Gould revê teorias assentes na frenologia, na craniometria ou na craniologia que procuravam justificar a escravatura, fazendo do homem branco um ser mais desenvolvido do que o homem negro; teorias que assentavam na relação entre a fisionomia e o carácter, para aproximar os pobres de traços mais simiescos, logo, mais propensos ao crime e a um mau carácter. Claro que Gould não poderia deixar de abordar a sempre abusiva moda do Quociente de Inteligência, assim como o abuso da psicometria e do teste de Stanford Binet ou a forma como estes testes eram aplicados a imigrantes, sem ter em conta qualquer biascultural em que mergulham profundamente estes testes. Surpresa, os imigrantes eram sempre retardados em relação aos americanos ou eram consistentemente menos inteligentes! Pouco importava que os testes fossem feitos em inglês ou que versassem sobre exemplos culturais estranhos a muitos dos imigrantes que a eles eram submetidos...

É claro que a maior parte destas teorias não resiste à mais pálida análise crítica. No entanto, elas serviram (e foram criadas, muitas delas) para justificar as desigualdades existentes em sociedade e criadas por essa mesma sociedade. O essencialismo tem uma função: manter a desigualdade e, já sabemos, que sem desigualdade e diferença, o capitalismo não pode funcionar.

Por exemplo, a associação entre uma determinada fisionomia a uma determinada classe social não tem uma causalidade em que a fisionomia produz a classe ou o estrato social, mas sim uma causalidade em que o salário, a alimentação e o estilo de vida de uma determinada classe produz a fisionomia dos seus membros... Ou, no caso do famoso QI: é óbvio que pessoas de culturas diferentes pontuarão de forma diferente num teste que tem muitas das suas perguntas alicerçadas em questões de conhecimento transmitido ou adquirido culturalmente. Também parece óbvio que pessoas que estejam expostas a uma linguagem mais evoluída, que estejam expostas a hábitos de leitura ou que tenham material de leitura acessível, possam pontuar mais nesses testes, comparativamente com pessoas que nunca tiveram essas oportunidades. Essa é uma diferença social e de classe que se reflete no teste. Não há aí nenhum essencialismo, mas sim um mecanismo de reprodução social da diferença. No entanto, para os mais ricos e poderosos, convém manter a versão do essencialismo e matar a versão de que a igualdade e a desigualdade são uma produção social. Porquê?

Há, pelo menos, um ou dois argumentos provindos da Psicologia – o facto de, para protegermos o ego, tendermos a internalizar os sucessos e a externalizar os fracassos e a chamada teoria do mundo justo, na qual, também para proteção de ego, tenderemos a ver o mundo como um local onde cada um tem o que merece: coisas más acontecem a más pessoas, coisas boas, a boas pessoas – que podem explicar o facto de os ricos utilizarem insistentemente argumentos essencialistas: com este tipo de argumentos, aqueles que têm poder e dinheiro, sentem que o têm não por sorte, acaso, família, etc., mas porque realmente merecem e fizeram por isso! Enquanto isso, os que são pobres, desempregados, mal remunerados, etc., são-no porque ou não fazem nada para contrariar a situação (é o típico 'culpem a vítima', próprio da teoria do mundo justo) ou porque está na sua essência (argumentos como 'são preguiçosos, não são inteligentes, não servem para nada').

Claro que considerar que os argumentos essencialistas são utilizados apenas por mecanismos psicológicos de proteção do ego seria de uma inocência tocante mas, por ser inocente, totalmente errada.

Há muitas outras razões, como é óbvio:

Fazer passar a ideia que as desigualdades são inatas e são produto de características profundamente enraizadasna nossa identidade e que, por isso, não há nada a fazer para as dirimir, é uma forma de manter os poderosos sempre no poder, descansadamente, sem qualquer receio de protesto ou rebelião, por muito injusta que seja a distribuição de rendimento! Creio que, do ponto de vista social, essa é a função do essencialismo. Manter o poder na mão da mesma meia-dúzia oferecendo, para os outros, um discurso em que se diz: 'Não vale a pena tentar subir a escada, tentar chegar cá acima; o topo não é para quem quer, é só para quem nasceu abençoado com os genes certos e a inteligência frugal'.

Claro que devemos colocar uma questão: não é este discurso essencialista contraditório com o discurso neoliberal do mérito pessoal, da ascensãosocial mediante um critério de meritocracia? Sim, é contraditório. De alguma forma é surpreendente que o essencialismo volte a ganhar terreno quando deveria ter sido varrido há cem anos ou mais!

No entanto, vemos, segundo o artigo de Matthew Hutson, um assessor do Ministério da Educação do Reino Unido dizer que as teorias da ascensãosocial ignoram a genética e que o rendimento escolar tem uma componente genética de 70%, argumento utilizado para atacar de imediato programas como o Sure Startque procuravam, através de apoio à infância, educação pré-primária, apoios à saúde, à família e ao desenvolvimento da criança, garantir uma igualdade de oportunidades. Pois claro, se tudo é genético, para quê andar a falar de igualdade de oportunidades?!

É, sem dúvida, uma visão mais conservadora que se vai afirmando em termos de discurso e de políticas públicas. Michael Kraus, que tem investigado os processos de essencialismo nos EUA, concluiu que os membros da classe dominante aderem com facilidade ao essencialismo, de forma a manterem o seu lugar na hierarquia. Ora, Kraus reparou que o Congresso dos EUA é composto por pessoas bastante ricas e, por isso, mais vulneráveis ao essencialismo, o que, por sua vez, pode fazer crer que estarão mais propensas a aprovar legislação e medidas que mantenham e reforcem as desigualdades.

Também em Portugal essa mudança do discurso neoliberal para um mais conservador, essencialista, se estará a tornar mais evidente, com destaque para as políticas públicas e para a forma como se constrói uma narrativa política completamente depreciativa, e em muitos casos agressiva, para com os desempregados e beneficiários de rendimento social de inserção.

Claro que a desigualdade é gerada socialmente e, por isso, há uma boa notícia: também pode ser destruída por processos sociais. Mas claro que a desigualdade serve ao capitalismo e aos topos da hierarquia, que a querem manter como forma de acumulação de poder e de riqueza e, por isso, parecem estar a construir narrativas justificativas das desigualdades de forma a aniquilar esperança, luta, progressão...

Sobre o/a autor(a)

Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, membro da Comissão de Saúde da Assembleia da República. Psicólogo
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