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A persistente captura do 25 de Abril

O deputado do PS Marcos Perestrelo veio propor que a comemoração do 40º aniversário do 25 de Abril se concentre numa grande parada militar. Com uma cajadada mataria dois coelhos. Deixa no entanto de fora o único coelho que interessa.

Um ex-Secretário de Estado da delegação em Portugal da NATO, o deputado do PS Marcos Perestrello, veio propor que a comemoração do 40º aniversário do 25 de Abril se concentre numa grande parada militar “que parta da avenida da Liberdade até ao Terreiro do Paço”.

Para ele, “O 25 de Abril foi um golpe militar e, portanto, o que há a fazer é homenagear os militares que o fizeram” (Público,20 Fev.)

Com uma cajadada mataria dois coelhos. Deixa no entanto de fora o único coelho que interessa.

O PS quer ocupar manu militari o espaço das comemorações populares do 25 de Abril e ajeitar melhor o terreno para a militarização da política que a UE está a reforçar.

O 25 de Abril deve toda a sua importância, em Portugal, na Europa e no mundo, à adopção do golpe dos capitães pelo movimento popular espontâneo e sua transformação no movimento social e político mais revolucionário que teve lugar na Europa, depois do Maio de 68. Como o Maio de 68 no mundo, com expressão revolucionária em França, o 25 de Abril teve na sua origem o processo geral de descolonização levado a cabo pela luta armada dos povos colonizados.

Mesmo a parte estritamente militar do 25 de Abril, a conspiração e acção do movimento dos capitães, depois designado tacticamente por Movimento das Forças Armadas, só foi possível pelo papel que teve a resistência anti-fascista, a resistência dos conscritos em geral e a resistência dos estudantes mobilizados e mobilizáveis em particular: desertores, refractários, auto-exilados, emigrantes políticos, movimentações estudantis que puseram a luta contra a guerra colonial no centro do combate ao fascismo marcelista.

Numa situação como a de hoje não é de estranhar que os militaristas natistas do PS queiram obnubilar a extraordinária carga popular do 25 de Abril que, desde a concentração no largo do Carmo, na manhã do dia 25 de Abril, marcou os dezanove meses que se seguiram, a que uns chamam loucos, outros anarco-populistas e outros ainda de estonteante alegria na construção de uma sociedade nova, o PREC !

O primeiro sinal do que de novo estava a acontecer foi a desobediência espontânea e massiva ao apelo central do movimento dos capitães naquela “madrugada inteira e limpa”: “fiquem em casa”.

A desobediência, como marca fundamental da democracia revolucionária, a partir de cujas aquisições se intentou moldar as futuras instituições e a organização do Estado, sendo ainda hoje, essas aquisições ou o que delas resta, uma referência para um futuro Estado de Direito socialista.

Se assim não tivesse sido teríamos uma espécie de 28 de Maio democrático como o PPD, futuro PSD, saído da ala liberal da Assembleia Nacional fascista e os socialistas desejariam – feito o golpe, tropa nos quartéis às ordens do “nosso general” que Mário Soares fez marechal apesar dos crimes e golpes por ele incitados ou perpetrados contra as negociações para acabar com a guerra pela independência das colónias (ver o recente livro de Ribeiro Cardoso, “O fim do império,memória de um soldado português, o 7 de Setembro de 1974 em Lourenço Marques”, da Caminho) e contra a democracia em Portugal: 28 de Setembro de 1974, 11 de Março de 1975, comando dos bombistas do MDLP.

E não teríamos sequer a Constituição, escrita sob a pressão da rua durante 19 meses de luta e festa, que ainda hoje resiste às investidas furiosas dos adeptos da evolução na continuidade, apesar das profundas feridas que lhe têm sido infligidas pela agremiação liberal/militarista PS-PSD-CDS.

A proposta para a comemoração militar (afinal bem à medida do “reencontro com a nossa história” na expressão de Sá Carneiro quando, em 1981, queria eleger para presidente o falecido Soares Carneiro observador dos nazis na frente russa na IIGM, agora ressuscitada pelo sibilino Luís Amado para apoiar a entrada da Guiné Equatorial na CPLP) parece destinada a celebrar simbolicamente o acordo envergonhado do PS com a “tropa fandanga” do governo, já claramente inscrito na subscrição do memorando da troika e na subordinação ao Tratado Orçamental.

Até não lhe fica nada mal: o 25 de Abril sob a bota cardada da tropa que nunca foi capaz de o comemorar, apenas enaltecendo as obras valerosas na guerra colonial e a participação nas operações de apoderamento levadas a cabo pela NATO; da tropa que nunca se refez, passados 40 anos, de ter sido desfeiteada pelos seus próprios capitães que tiveram a ousadia de destroçar a hierarquia, condição primeira para acabarem com uma guerra infame e abrir as portas à liberdade, coisa que essa mesma hierarquia vergada aos colonial-fascistas se recusou a fazer, como lembrou Otelo no dia em que foi graduado Brigadeiro e Comandante Operacional do Continente.

A hierarquia das Forças Armadas nunca aderiu abertamente ao 25 de Abril, nem mesmo amputado do seu carácter revolucionário eminentemente popular, em 25 de Novembro de 1975, sob a pusilânime iniciativa do PS,

O instinto oportunista inerente à proposta visa também acalmar o sururu de indignação e quase insubordinação que grassa entre os militares, também eles postos a pão e laranja sob a brutal investida da direita que o PS promete continuar, fiel como é aos compromissos: neste caso e nesta data, o Tratado Orçamental.

Nas palavras do Público, “a proposta reuniu o consenso na Comissão Parlamentar de Defesa”.

O simbolismo das comemorações pode sublinhar ou reforçar o carácter do que é comemorado. Mas pode mesmo esvaziá-lo de conteúdo ou, pior, deturpá-lo criminosamente se “ na disputa pela hegemonia sobre as leituras do passado” (Miguel Cardina, esq.net 21fev.) se impuser uma versão a contento dos que têm desmantelado as conquistas que, neste caso, o próprio acto a comemorar exigia, pelo menos formalmente (Programa do MFA).

Como nas baías, aquelas reentrâncias da costa marítima onde a fúria do mar abranda e as ondas se espraiam mais pachorrentas, as comissões parlamentares têm normalmente um papel de abordagem mais calma das questões entre os deputados. Mas podem ser também o lugar onde se definem e separam campos com mais objetividade.

Já que falamos de tropa, a baía que ficou gravada com mais nitidez na memória histórica recente dos povos foi a Baía dos Porcos em Cuba, onde as forças contra-revolucionárias, apoiadas pela CIA e pelo Pentágono, levaram uma sova humilhante e definitiva.

A Comissão de Defesa da AR pode vir a justificar ser chamada assim, Baía dos Porcos.

Por boas razões, as da analogia; ou por más razões, as da metáfora.

Sobre o/a autor(a)

Coronel na reforma. Militar de Abril. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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