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A passadeira vermelha

Entre nós, ainda há quem insista em colocar Isabel dos Santos e a burocracia de Pequim no pedestal do “campo anti-imperialista”.

No debate suscitado pelo lançamento de Os Donos Angolanos de Portugal, há um interpelação frequente: o capital angolano é “pior” que os outros? A esquerda padece de “xenofobia económica”?

A questão pode também ser colocada quanto ao capital chinês, como convida o relatório publicado há dias pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação acerca da acumulação privada na cúpula de Pequim. Treze familiares de dirigentes máximos do regime, entre os quais o cunhado do presidente Xi Jinping, o filho e o genro do ex-primeiro ministro Wen Jiabao, assim como quinze dirigentes de grandes companhias estatais, acumularam as suas fortunas pessoais em offshores nas Ilhas Virgens britânicas. O caso sublinha uma vez mais a natureza do regime do Partido Comunista Chinês (PCC), que reúne o pior de dois mundos - ditadura de partido único e saque capitalista.

Portugal é um dos maiores destinos de capitais chineses na Europa. Considerando a dimensão das várias economias europeias, somos, ao lado da Grécia, o país em que as aplicações financeiras chinesas têm maior peso relativo. Em termos absolutos, Portugal só fica atrás do Reino Unido e da Suíça e a par da Alemanha, como se constata neste levantamento, recentemente divulgado pelo Expresso (note-se que o gráfico ainda não considera a compra da Caixa Seguros pela Fosun e regista no Brasil a compra pela Sinopec de 30% da operação da Galp Energia naquele país, por 2,7 mil milhões).

Estas contas limitam-se a negócios acima de cem milhões de dólares, deixando de fora as aquisições imobiliárias acima de meio milhão de euros associadas à emissão dos célebres “vistos dourados” pelo Estado português, que oferece livre-circulação no espaço Shengen e, ao fim de seis anos, a nacionalidade portuguesa. Este negócio tem sido muito procurado, com 80% dos vistos atribuídos a cidadãos chineses, mais de trezentos, e centenas de casarões vendidos. Como diz um dos jornais do PCC, “Portugal estende a passadeira vermelha aos chineses ricos”.

O que estes dados mostram, tal como no caso angolano, é que as grandes transformações que a crise está a operar no capitalismo português passam em grande medida pela atuação direta de dois regimes autoritários, através de empresas estatais ou de capitais privados acumulados a partir da corrupção e da proximidade com a cúpula do poder.

A esquerda portuguesa, se defende a possibilidade da nossa auto-determinação económica, não pode ignorar os novos donos do país, estejam eles onde estiverem. Nos casos chinês e angolano, não há como esconder que os interesses populares portugueses entrarão em irremediável choque com os poderes que beneficiam da privatização de bens estratégicos e que estarão na primeira linha do bloqueio a qualquer estratégia de recuperação pública que a esquerda queira impor.

Até o Partido Comunista da Grécia, entre abundantes citações de José Estaline, lá teve que desirmanar-se dos camaradas chineses quando estes compraram o Porto do Pireu. Entre nós, ainda há quem insista em colocar Isabel dos Santos e a burocracia de Pequim no pedestal do “campo anti-imperialista”. Já se sabe que, assim sendo, não vale falar de direitos humanos, liberdade sindical e de imprensa... Mas deveríamos também agradecer, com Portas e Passos, a compra da EDP, REN, Fidelidade, Galp, BCP, BPI, Zon? Cabe-nos limpar o pó da passadeira vermelha?

Artigo publicado no blogue Inflexão

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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