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Pancadas primeiras e segundas

Os escrúpulos não foram ao congresso. Nem sequer se passearam por lá nos bastidores. Recusaram-se a acompanhar o Marcelo ou o outro comentador.

Os nazis, quando torturavam os filhos à frente dos pais e vice-versa, batiam com primor nos sítios em que já havia nódoas negras. De facto, as primeiras pancadas não eram as que doíam mais.

Que os nazis utilizassem estas e outras técnicas de tortura com um profissionalismo programado, não espanta ninguém. Nada já há que espante nos relatos sórdidos das atrocidades que os monstros cometeram, tão monstros e tão infames que a gente se encolhe de asco cru face ao eco de dor que a memória narrada deixa no ar.

O que é verdadeiramente espantoso é que um primeiro-ministro venha confessar no congresso do seu partido que irá aplicar essa mesma técnica ao povo que o elegeu.

O que é verdadeiramente obsceno é a nítida consciência de que as medidas que por aí vêm serão pancadas que vão doer mais que os porradões e cortes iniciais.

O que é verdadeiramente tenebroso é a displicência com que isto se confessa à plateia do coliseu que acolheu o circo.

E, pior ainda, que as medidas que se pressentem como as pancadas em cima de hematomas sejam aplaudidas e o homem prossiga nas palavras, naquele tom cordial que a mediocridade acanalhada sempre empresta a sujeitos sem escrúpulos.

Os escrúpulos, aliás, não foram ao congresso. Nem sequer se passearam por lá nos bastidores. Recusaram-se a acompanhar o Marcelo ou o outro comentador. Desapareceram, estão em parte incerta, possivelmente a fazer companhia à decência, que se recusa a meter o pé em tudo o que cheire a matéria governamental, ou à relva onde o poder pasta. Entendem que andar por ali é perder tempo. Hibernaram.

A linguagem metafórica da porrada primeira e segunda exibe a compulsão para o saque e a desvergonha.

Sobre o/a autor(a)

Advogada, dirigente do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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