You are here

Má circulação

É claro que a Suíça - como a França, como os Estados Unidos ou como Portugal - é o que é porque recrutou centenas de milhares de imigrantes quando deles precisou.

A apologia do movimento é porventura o traço mais forte do discurso legitimador da globalização. As leituras que a entronizam costumam realçar o encurtamento do tempo e do espaço como um privilégio dos nossos dias e os mais entusiasmados realçam mesmo que ao mundo fixista dos espaços se substitui cada vez mais o mundo dinâmico dos fluxos. Os encantados com esta globalização põem o acento na circulação e no derrube dos obstáculos a ela como a marca do tempo. E, no entanto, para os pobres das periferias nunca houve tantas fronteiras, tantos checkpoints nem tantos muros à sua circulação.

O capitalismo global vive hoje dessa tensão entre a apologia da maximização da circulação dos capitais e a contenção da circulação global de trabalhadores. Invocando razões de segurança (a ameaça da infiltração terrorista) ou indo mais diretamente ao assunto e invocando abertamente a proteção dos nacionais contra a concorrência dos estrangeiros com salários mais baratos, o centro rico faz da contenção das periferias a sua estratégia nestes tempos de globalização desreguladora. E, para o efeito, opta tanto por fechar fronteiras (com muros físicos como com muros legais) como por intervir nas periferias de modo a que a pobreza seja tratada como um problema local e não atravesse fronteiras, mesmo se as suas causas são transfronteiriças.

O referendo do passado domingo na Suíça - que prolongou no tempo os efeitos da cláusula de salvaguarda dos acordos com a União Europeia ativada em abril de 2013 - é uma expressão acabada desta adoção crescente da contenção das periferias como traço do nosso tempo. É claro que a Suíça - como a França, como os Estados Unidos ou como Portugal - é o que é porque recrutou centenas de milhares de imigrantes quando deles precisou para os trabalhos que os suíços não estavam dispostos a realizar. É um facto que há sectores inteiros - como a construção, a indústria farmacêutica, os cuidados básicos de saúde ou a produção de máquinas para exportação - que dependem do trabalho de imigrantes. É sabido que os famosos túneis ferroviários dos Alpes foram construídos por trabalhadores italianos, muitos dos quais morreram nessas obras. Fosse o reconhecimento a questão central para os governos e o estreitamento das quotas de imigração seria uma pura patifaria. O CDS - que há anos fez da limitação das quotas de imigração a sua bandeira política - e os membros do Governo do PS que em 2009 lhe fizeram a vontade devem saber bem, neste momento em que tal garrote se vira contra os portugueses, o que são esses tormentos da memória...

A verdade é que nesta Europa o reconhecimento e a memória são coisas descartáveis. O que conduz as políticas migratórias é antes, cada vez mais, o medo estúpido que se alimenta de perceções distorcidas da realidade. Neste caso concreto, o problema é a combinação explosiva entre a crise salarial, o desemprego e a falta de horizontes que rodeia a Suíça e perceção disso como ameaça ao modo de vida das pessoas na Suíça. A resposta, dada no referendo de domingo, é a mais irracional de todas. Irracional por ignorar o passado e irracional por ignorar o presente: a Suíça depende da União Europeia para 62% das suas exportações e para 79% das suas importações. Irracional, portanto, por, ao ignorar o passado e o presente, hipotecar interna e externamente o futuro da Suíça.

O referendo suíço é um desafio à União Europeia e ao seu discurso sobre a liberdade de circulação como pilar da construção europeia. Desgraçadamente, uma Europa que desde Maastricht sacraliza a circulação de capitais e policia a circulação de pessoas, fará tudo para não causar melindre ao poder da banca suíça mesmo se isso a levar a assobiar para o lado diante dos ataques às outras liberdades propaladas.

Artigo publicado no jornal “Diário de Notícias” a 14 de fevereiro de 2014

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
(...)