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(des)Endireitar a Europa

Votar à esquerda nas eleições europeias significa desobedecer à europa da Troika, significa chumbar este projeto da alta finança que se apoia na exploração dos países mais pobres para enriquecer bolsos privados.

A Europa está sob assalto. Um pouco por toda a Europa, a direita faz sentir as suas pressões governativas. Querem transformar as democracias europeias em projetos conservadores que nos fazem recuar décadas na história dos direitos humanos e na dignidade da vida humana.

A hipocrisia atingiu níveis históricos: a crise económica serve de pretexto para limitação dos direitos. O Ministério da Justiça espanhol publicou um documento onde afirma que a restrição do aborto pode ser benéfica para a economia. O governo de Rajoy pertence a uma direita tão conservadora que considera recuar a lei de tal forma, que a tornaria mais restritiva do que aquela que existia em 19851. Interromper a gravidez passaria a ser possível apenas em casos de risco para a saúde física e/ou mental da mulher ou em caso de violação. Contudo, mesmo nestas situações, o processo burocrático e processual prevê-se tão complexo que obrigaria a mulher a sujeitar-se a uma violência psicológica ainda maior do que aquela pela qual passa ao ter de decidir pôr termo a uma gravidez. O governo espanhol manipula os dados e procura dar a entender que o aborto é hoje visto como um método de “planeamento familiar”; tenta vender a ideia de que é proibindo a interrupção voluntária da gravidez que diminuirá a sua incidência nas mulheres e que a proibição poderá, por si só, substituir a educação sexual e a necessidade de informação dos e das jovens relativamente ao conhecimento do seu corpo.

Também em Portugal somos vítimas de uma direita conservadora. A mais recente manobra da JSD passou por querer levar a referendo aquele que deveria ser há muito um direito reconhecido pelo Código Civil português: a adoção por casais homossexuais. Esta ala da direita portuguesa procura pintar o país de um conservadorismo que não nos representa. Sob pretexto de estarem a defender exclusivamente o interesse e o bem estar das crianças, fazem cumprir a sua agenda retrógrada que apenas retira a mais crianças e casais um direito que deveria ser inaliável: a família.

A crise económica que abala a Europa tem servido de argumento para colocar em causa os direitos das minorias sociais e impedir o avanço natural da sociedade. Tem também sido usada pela extrema-direita para instaurar o medo e colocar “nacionais” contra “imigrantes”, manipulando os dados da criminalidade, do desemprego e da distrubuição das prestações sociais, explorando o desespero daqueles que mais sentem a crise. O curioso no fenómeno do crescimento da extrema-direita na europa é que, para responder à atual crise, procuraram construir um discurso populista contra o grande capital. Ou seja, lançam slogans contra a economia capitalista mas, na verdade, não têm propostas que protejam o povo do domínio da burguesia, nem apresentam um modelo económico coerente.

França é o caso mais flagrante desta ascensão de uma Direita que quer fechar fronteiras: o partido de Le Pen está à frente nas sondagens francesas para as eleições europeias. Este é um sintoma grave do estado de degradação e descredibilização das democracias na Europa. Le Pen - que será julgada por incitação ao racismo - defende a destruição da União Europeia2, não porque acredite que, com este modelo, constitua um ataque à democracia e esteja a ser usada em prol dos interesses financeiros, mas porque faz parte da sua agenda política a reorganização social da Europa, onde não exista espaço para a solidariedade entre povos e a livre circulação de pessoas.

Perante esta nova conjuntura, a esquerda tem de se clarificar e demarcar da estratégia dos partidos socialistas na Europa (como são o caso o Partido Socialista português e francês), que passa por catalogarem-se como partidos de esquerda mas que servem de apoio às políticas de direita e defendem a austeridade, seja em regime “light” ou não, que tem agravado a crise em que vivemos submersos.

Em Maio realizar-se-ão as eleições europeias. Todo o ato eleitoral é importante mas este que se aproxima reveste-se com um poder reforçado. Votar à esquerda nas eleições europeias significa desobedecer à europa da Troika, significa chumbar este projeto da alta finança que se apoia na exploração dos países mais pobres para enriquecer bolsos privados.

Contra este modelo de União Europeia, a esquerda terá um trabalho e uma responsabilidade reforçada nesta campanha para tornar possível um futuro em que possamos decidir mais, em que a nossa voz não exista em função do nossa dívida e em que consigamos resgatar a ideia de uma única Europa aberta, livre cooperante e solidária.


Sobre o/a autor(a)

Estudante do Ensino Superior. Membro da Coordenadora Nacional de Estudantes do Bloco de Esquerda.
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