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Afinal para que queremos a Ciência?

Enquanto noutros países a estratégia passa por apostar na formação superior e na ciência, em Portugal remete-se a geração mais qualificada de sempre para o limbo do desemprego ou da emigração e a ciência para um lugar residual na estratégia de desenvolvimento do país.

O ano de 2014 trouxe consigo o pior dos cenários para a ciência em Portugal. Num país onde apenas nas últimas décadas se assistiu a um desenvolvimento científico capaz de nos colocar ao nível dos países mais desenvolvidos neste campo, confirmou-se agora que a ciência e a formação científica são afinal, nada mais, do que luxos. Uma espécie de gorduras daquelas onde é preciso cortar.

Os cortes no financiamento ao ensino superior e às universidades já vinham revelando o que pensa este governo da formação superior e do desenvolvimento da ciência. Nada diferente do desdém que demonstra pelos outros níveis de ensino e especialmente pela Escola Pública. A educação do povo é coisa que não interessa a este governo.

O desinvestimento na investigação científica em Portugal atingiu o auge com os cortes verificados este ano na atribuição de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Os resultados dos concursos individuais a bolsas da FCT anunciados no início de Janeiro revelaram uma redução de 65% na atribuição de bolsas de pós-doutoramento e de 40% nas bolsas de doutoramento.

Enquanto noutros países a estratégia passa por apostar na formação superior e na ciência, em Portugal remete-se a geração mais qualificada de sempre para o limbo do desemprego ou da emigração e a ciência para um lugar residual na estratégia de desenvolvimento do país.

Não se trata aqui de considerar as bolsas de formação superior como boias de salvamento ou protótipos de emprego. Qualquer candidato às bolsas FCT tem plena consciência de que não se trata de emprego. Se não tivesse, rapidamente a precariedade ou a inexistência de segurança no desemprego revelariam a realidade. O objetivo destas bolsas passa por permitir aceder, a quem sem elas nunca teria essa hipótese, a uma formação superior de alta qualidade e de desenvolver as suas capacidades contribuindo para o desenvolvimento e competitividade do país. E todo este trabalho de excelência que tantas vezes tem colocado Portugal na vanguarda do avanço científico e tecnológico mundial tem sido desenvolvido precisamente por bolseiros tantas vezes em condições precárias e adversas. Perder este potencial é votar o país à pobreza da ignorância.

Mas esta política de cortes cegos, não tem consequências apenas na vida de milhares dos mais qualificados cientistas do país. Fragiliza também o funcionamento das instituições de I&D e a continuidade de milhares de projetos de investigação de excelência. Perdemos todos.

Quem encara o investimento feito na formação superior e no desenvolvimento da ciência como mera despesa e dele tem uma ótica meramente mercantilista não compreende que o retorno é infinitamente decisivo numa estratégia de afirmação do país no contexto internacional. Não apenas por via do aumento do número de doutorados e pós doutorados mas especialmente pela elevação do nível de conhecimento que proporciona, pela projeção internacional que favorece e pelo desenvolvimento económico, social e cultural que promove. A opção de remeter para as empresas e os mercados o ónus do desenvolvimento científico do país revela que quem a defende não sabe o que é e para que serve a ciência. Deixar o desenvolvimento científico do país ao comando das necessidades dos mercados conduz a uma ciência coxa porque seletiva e moribunda porque conduzida com fins unicamente instrumentais. A inovação e a criatividade deixam de ter lugar neste modelo. O valor do conhecimento pelo conhecimento e o amor pela ciência, mote de qualquer projeto de investigação não tem lugar nesta conceção mercantilista da produção científica.

Sabemos bem que todos estes cortes na ciência e na formação superior enformam uma ideologia adversa a uma sociedade justa e igualitária e que o desenvolvimento da ciência e do conhecimento são alvos a abater por quem já demonstrou saber que uma das melhores armas de subjugação dos povos é a ignorância. Continuaremos a combater esta ideologia e a lutar pela ciência, pelas pessoas, pelo país.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Professora universitária. Socióloga.
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