O centro tem salvação?

porFrancisco Louçã

07 de August 2023 - 18:51
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O medo é uma força eleitoral. Vai ser usado mais intensamente e alimenta-se a si próprio numa espiral infindável. O que o centro não procura é o fim do medo: a segurança para a vida da gente.

O alívio espanhol não dispensa a questão mais evidente: o protagonista da campanha eleitoral foi o medo, a direita com o plebiscito antissanchista (o “aliado dos terroristas”) e os socialistas com a ameaça do acordo PP-Vox. Ora, o medo pode vencer, mas não sabe governar. O uso do medo é naturalmente um subproduto da aceleração emocional que as formas de comunicação baseadas nas redes sociais permitem e estimulam, construindo uma nova linguagem e uma tipologia específica de guerras de posições, e é nele que se especializam os criadores da política gasosa. Vai prosperar. No entanto, cria um vazio político — e é nessa sombra que se alimentam ou nascem os monstros.

O lugar das trevas

Para estudar esse vazio, dois cientistas, Bjorn Bremer e Kine Rennwald, do Max Planck Institute e da Universidade de Genebra, publicaram há dois meses um estudo sobre evolução do mapa eleitoral em 18 países europeus entre 1945 e 2021 (“Who Still Likes Social-Democracy? The Support Base of Social Democratic Parties Reconsidered”, Party Politics, 29(4), online). Em 2021, no fim do período do qual registam os votos e a evolução de sondagens e estudos acerca das atitudes dos eleitores dos partidos sociais-democratas tradicionais, as perspetivas pareciam sorridentes: o centro governava quatro países nórdicos, mais os dois ibéricos e passara a dirigir o Governo alemão. Já havia sinais inquietantes, como na Holanda, em que o partido passou de 25% em 2017 para 6% quatro anos depois (e, agora, um terço dos eleitores apoiam um partido contra as regulações climáticas) ou a substituição do PASOK pelo Syriza na Grécia. Vieram depois as eleições presidenciais francesas (2%), a participação de forças de extrema-direita nos Governos finlandês e sueco, o Governo Meloni em Itália e o ascenso dos seus pares nas sondagens na Áustria e na Alemanha, para não falar da Hungria, Polónia e Chéquia. O que Bremer e Rennwald fizeram foi olhar para os seus dados e inquirir sobre as razões deste desgaste, perguntando se alguém ainda gosta da social-democracia.

Sim, é o que nos diz o gráfico com estes resultados agregados. No entanto, em 20 anos o apoio do centro baixou de cerca de 30% para cerca de 20% (podia-se acrescentar-lhe outras formações de centro, os partidos verdes, mas também perderam terreno), ao passo que as esquerdas subiram alguma coisa, ficando acima dos 10% desde a crise financeira de 2008. Há que notar, em todo o caso, que estes agregados são muito heterogéneos e podem ser enganadores (na segunda metade do século XX, os autores incluem partidos comunistas que ultrapassavam os 20% nos seus países, um dos quais desapareceu entretanto, o italiano). Por detrás destes dados, no entanto, descobre-se uma mutação ameaçadora.

Avançar para trás

Além dos votos, os autores consideraram os dados disponíveis para quase todos esses países acerca das atitudes e preferências dos próprios eleitores sociais-democratas. E é aí que estão as conclusões mais interessantes. Elas demonstram um sucesso: desde que se virou para a “terceira via” nos anos 1990, os partidos sociais-democratas consolidaram as suas referências estratégicas numa combinação de liberalismo económico com um discurso benfeitor e atenuante das dificuldades que assim aceleravam. A contradição já vinha de trás: na década anterior, Mitterrand tinha nacionalizado todo o sector financeiro e os sete principais grupos industriais, para logo desfazer essa investida e se conformar com as regras de mercado; depois, foram governos sociais-democratas que paraconstitucionalizaram as regras liberais na União Europeia. Só que essa adesão ao liberalismo económico teve um preço, aliás desejado pelos estrategos da terceira via: alienou o apoio dos operários empobrecidos, que são “desmobilizados”, nos termos dos nossos dois autores, tentando em contrapartida promover a fidelização da “classe média”, que são sempre “distantes”, dado não terem um modo de sociabilidade grupal. Ou seja, é um apoio instável, gere interesses e, cá está, flutua com os medos.

Dois desses medos são a guerra e a imigração. Esta, tão necessária, é usada pela extrema-direita para criar uma identidade nacional racista, ao que uma parte do centro, como foi o caso do Governo social-democrata dinamarquês, respondeu aderindo à punição da imigração. Alimentou os seus adversários com a desumanidade da sua política. Há ainda a guerra, que deslocou a política europeia: se a mobilização contra a do Vietname criara parte da esquerda moderna e 30 anos depois a do Iraque dividira a direita e ampliara a frente pela autodeterminação das nações, a invasão da Ucrânia desfez partes da esquerda e levou o centro a desistir de um projeto energético europeu e a alinhar-se com os falcões norte-americanos. O medo, mais uma vez.

Assim sendo, a conclusão espanhola parece evidente: o medo é uma força eleitoral. Vai ser usado mais intensamente. E alimenta-se a si próprio numa espiral infindável. Há sempre mais medo depois do medo. O que o centro não procura é o fim do medo: a segurança para a vida da gente.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 28 de julho de 2023

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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