Dançar a música dos preços

porFrancisco Louçã

01 de April 2023 - 17:30
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Tudo se resume a um princípio: o salário é a variável de ajustamento para o aumento do lucro, que garantirá a prosperidade e o investimento e a abundância de rios de leite e mel.

Como toda a gente percebeu, a luta de classe é neste momento uma luta de preços. Como não estávamos habituados, movem-se exércitos de bem disciplinados especialistas, arautos e gurus para convencer o povo ignaro não só da inevitabilidade como até da bondade da inflação, conjurando tragédias imensas se este curso fosse impedido por uma absurda manutenção dos salários reais. A banca esfrega as mãos com a margem que lhe é oferecida entre os juros minúsculos pagos aos depósitos e os impostos ao crédito e, se algo aprendeu com a impunidade da cobrança de taxas punitivas contra os clientes, foi que o Governo bradará sobre o assunto e tudo permitirá, em Portugal essa margem será o que a finança quiser, les jeux sont faits. O governador do Banco de Portugal multiplica intervenções — eram precisas tantas sobre o mesmo tema? — para avisar que os salários não podem crescer, pois arrastariam uma inflação perigosa que, curioso facto, continua a galgar (mais 6% em 2023, diz o Conselho de Finanças Públicas), apesar de a causa maldita estar ausente desta consequência. E, se há algo que ainda pode surpreender em Centeno, é que venha radicalizando a sua posição, já sugeriu que 2% de aumento salarial seria o máximo aceitável, pois esse é o objetivo declarado da inflação lá nos comités de sábios que estudam o assunto (tudo fantasia, não é?), ao passo que agora avisa a pátria do efeito devastador de um aumento de 1%, ou seja, se a perda de salário real em 2022 e 2023 não for pelo menos de um mês de vida o país estaria condenado aos infernos dos preços que, alheios a esta conversa, continuam a crescer para gáudio de não poucos beneficiários. Tudo isto é uma farsa? Olhe que não, é só o poder a ser poderoso.

Preço do trabalho

A monitorização minuciosa dos salários é um empenho das instituições europeias, em nome dessa distorção dos preços. Tudo se resume a um princípio: o salário é a variável de ajustamento para o aumento do lucro, que garantirá a prosperidade e o investimento e a abundância de rios de leite e mel. A proposição, que é a história dos últimos duzentos anos da nossa vida coletiva, conduz a contradições, e não só por ser desmentida pelos factos, nem se vê prosperidade nem investimento, malgrado a obediência servil àquele princípio. Na prática concreta, não é tão fácil enganar toda a gente durante todo o tempo e o Eurogrupo, em janeiro, lá teve que conceder que havia margem para subir salários, mesmo dizendo uma coisa e o seu contrário: “a calibração dos salários deve apoiar o poder de compra dos trabalhadores, ao mesmo tempo que ajuda a aliviar a pressão sobre os preços”, ou seja, os salários devem subir e não devem subir. A 14 de fevereiro, a Comissão Europeia lamentou-se sobre a desgraça do aumento dos salários, mesmo que em nenhum país acompanhem a inflação, ou sejam, estejam a subir para baixo, como se diz em bom português: “O aumento das pressões salariais deverá manter os preços dos serviços e a inflação subjacente relativamente elevados”, pelo que “um ajuste mais rápido (dos salários) do que o previsto alimentaria um núcleo de inflação mais elevado”. Portanto, estamos avisados: para que a economia prospere, é preciso que as pessoas percam.

O preço da habitação e saúde

O debate sobre a política de habitação segue exatamente este guião. A dupla tenaz do aumento dos preços dos juros (para mais de 1 milhão de famílias endividadas com a casa) e do disparar dos preços da compra ou do arrendamento responde igualmente uma estratégia de preços para transferir rendimentos, neste caso para bancos e fundos financeiros que dominam o mercado imobiliário e que procuram o apoio de uma massa de pequenos proprietários que vivem na margem do turismo. E, como se trata de uma questão social preocupante, o país treme e os discursos sobem de tom para garantir que o povo aceita essa única lei, a da subida dos preços.

Com o défice a 0,5%, Portugal rejubila. Ainda bem que a folga de €2500 milhões não foi usada para resolver o problema dos professores ou para criar carreiras profissionais nos hospitais e centros de saúde, não é?

Nesta precipitação, tudo se torna absurdo. O Presidente garante, com dureza, que a lei ainda inexistente é “inoperacional”, uma “lei cartaz”, sublinhando que algumas das suas medidas nem serão para inglês ver. É claro, e ele bem o sabe, que não haverá um único alojamento requisitado para arrendamento e o argumento de que tal faculdade já existe na lei só o sublinha, até agora nunca foi usada e não será diferente no futuro. Por isso, o Governo, na aflição de um confronto com Belém, faz o que Marcelo esperaria e certamente sentirá como uma vitória, vem dizer mansamente que há benefícios fiscais para os fundos financeiros, além de propriedades a entregar aos construtores imobiliários. De facto, esse é o núcleo realizável deste pacote, é mais uma vez o preço. Toda a política dos vários governos, desde a ‘lei Cristas’ até aos vistos gold, passando pela promoção do alojamento local, tem uma única lógica económica e social, subir os preços. Não há nem haverá nenhuma promessa que belisque esse processo até ao dia em que sejam disponibilizadas casas suficientes a preços suficientes de modo a determinar o valor da habitação, o que, como é bom de ver, está tão distante da ideia do Governo como uma putativa manutenção dos salários reais.

E que importa tudo isto? Com o défice a 0,5%, Portugal rejubila. Ainda bem que a folga de €2500 milhões não foi usada para resolver o problema dos professores ou para criar carreiras profissionais nos hospitais e centros de saúde, não é? Os preços mandam.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 24 de março de 2023

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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