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O Governo no vai ou racha

Ninguém melhor contribui para esta lenta degradação do que o primeiro-ministro, que permite tudo na expectativa de que o caso seguinte apague o anterior e que essa técnica leve ao esquecimento.

Não estamos tão próximos do precipício que seja de marcar calendário para eleições, pelo menos com os dados sobre os “casos e casinhos” de ontem. Os cenaristas que apresentaram o modelo — ou o outro, esse inviável, de uma sucessão primoministerial depois de uma noite tremenda no Rato — e, como seria de esperar, os que o comentam como se fosse a sério, logo abundando em detalhes sobre as coligações futuras e o avanço presidencial, têm uma agenda que nada espera dessas imaginárias eleições e só aposta na pantanização. Não estão a puxar o anzol, estão a largar linha para prolongar a pescaria.

É preciso também reconhecer que ninguém melhor contribui para esta lenta degradação do que o primeiro-ministro, que permite tudo na expectativa de que o caso seguinte apague o anterior e que essa técnica de contrafogo resulte miraculosamente no esquecimento ou no entretenimento. O PS, para resolver os problemas que cria, joga na continuidade da crise.

Casinhos

Não é de hoje que tenho grande desconfiança em relação a filtrações de investigações judiciais que fornecem aberturas de telejornais com insinuações. Não tenho apreço por práticas de condenação pública por via de transcrição seletiva de escutas ou até da sugestão da sua inverificada existência. Creio, mais, que a sedução de responsáveis da justiça pela multiplicação da glória da manchete tem permitido que sejamos alimentados por muitas notícias que nunca serão confirmadas e por não poucas que se revelaram falsas. Não aplaudo que agentes da justiça façam chamar “buscas” à recolha de atas de uma assembleia municipal. Noto finalmente que essas técnicas alimentam a irritação dos magistrados que querem justiça e também as teorias de conspiração.

Diz-se que esta crise prolongada surpreende. Nada. Estava escrito: é assim mesmo uma maioria absoluta

No entanto, os problemas do Governo não estão nesses possíveis expedientes. Os problemas estão mesmo no Governo. Do uso de 300 mil euros para pagar a renda de um pavilhão inexistente em terreno inexistente só é responsável o autarca que foi escolhido para braço direito de Costa na coordenação do Governo. Da demissão de uma secretária de Estado com uma conta penhorada pelo tribunal só se pode responsabilizar a própria e a escolha que mereceu. De uma deputada portuguesa, secretária nacional do PS, ter ao mesmo tempo atuado como lobista oficial da REN no Parlamento Europeu, recebendo o generoso proveito dessa atividade, só a própria se pode queixar — com a particularidade de agora ter aprendido o que é o cinismo dos seus colegas, que forçaram a venda da empresa a interesses controlados pelo PC Chinês e agora a apontam por ter trabalhado para esses donos.

Tem sido este acumular de escolhas de mandantes do PS que fragiliza o Governo. E, como a procissão vai no adro, toda a gente terá percebido o aviso a que Costa quis dar destaque esta semana: ele antecipa que outros membros do Governo serão arguidos em processos e está a prevenir o prejuízo. Isto vai piorar.

Os dois caminhos

Diz-se que esta crise prolongada surpreende. Nada. Estava escrito: é assim mesmo uma maioria absoluta. É o sistema mais instável e perigoso, pois revela imediatamente como funcionam estes partidos e retira baias aos seus governantes, que pensam viver num mundo de inocente prepotência. A instabilidade acentua-se por outros dois efeitos, além do deslumbramento que transforma pessoas aparentemente razoáveis em figuras impantes. O primeiro é o do discurso: uma maioria absoluta acha-se a palavra absoluta e, por isso, suponho que o Governo nem se dá conta da contradição chocante entre o autoelogio da sua glória (as contas, o superávite primário!) e a imposição autoritária do empobrecimento (se os salários não perderem com a inflação, Portugal mergulhará na sombria decadência!). O segundo é o da prática do discurso: o Governo não quer resolver o problema da educação, só cede nos escalões aos professores precários por ser obrigado por Bruxelas, mas não pagar os anos de serviço é questão de regime, Costa dixit; resiste a um SNS com carreiras profissionais dignas e basta-se com remendar os rombos que vai criando; destrói qualquer política de habitação promovendo a especulação. Ou seja, a maioria absoluta, no discurso e na política, é um perigo.

Ora, como bem se nota, isto é agravado por dois caminhos desta crise: a escolha de governantes no espaço fechado do partido e a sua devoção a esquemas. Um ministro anterior criou uma empresa imobiliária na véspera de entrar no Governo; um atual tem parte de uma que, diz-nos, tem casas aí por todo o lado, não sabe onde. Há aqui um problema, não há? Não, o questionário resolve. Só que não precisa de ser preenchido, já a “larguíssima maioria das questões foi respondida” pelos governantes, diz Vieira da Silva, anunciando, portanto, que ou as outras perguntas são irrelevantes e o questionário é uma farsa ou, o que é mais certo, que foi sempre tudo uma farsa para afogar em moralismo a crise do dia anterior.

Assim, a maioria absoluta já só se disfarça para deixar passar o tempo, acreditando na luz do PRR e que a mesma promessa resultará duas vezes. Chegar a 2024 é tudo o que pede. O problema, como se vê, é que o primeiro-ministro desistiu e que a direita espera que ele continue a afundar os problemas sociais. A maioria absoluta, como tinha que ser, serviu para paralisar o país. Ora, o que há de novo em 2023 é que o choque da realidade traz multidões para a rua. Percebe-se, o povo detesta a maioria absoluta. Ainda bem.

Artigo publicado no jornal “Expresso” em 27 de janeiro de 2023

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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