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Ainda haverá imprensa dentro de 10 anos?

O tambor das informações na sociedade deixou de ser a intermediação profissional pelas empresas de comunicação e passou a ser a comunicação pelas empresas de redes.

O primeiro número do Expresso foi publicado há 50 anos, a 6 de janeiro de 1973, o que esta edição comemora. Fora uma semana fulgurante: no domingo anterior, a polícia tinha prendido na Capela do Rato quase uma centena de pessoas, que ali estavam em assembleia e vigília. Os organizadores, Luís Moita e Nuno Teotónio Pereira, e outras pessoas foram levados para Caxias. Os dias seguintes mostraram mais fragilidades do regime, com uma nota temerosa do Patriarcado e a ida de António Ribeiro à porta da PIDE para esperar dois sacerdotes que foram interrogados, os padres Armindo Garcia e António Janela, e ainda com a decisão de expulsar da Função Pública Pereira de Moura, o fundador da ciência económica em Portugal, e outros presos.

A dupla informação

Anos mais tarde, no exílio, Marcello Caetano contou a sua versão: “A pretexto da comemoração do Dia da Paz Universal, instalaram-se dentro dela [Capela do Rato] uns tantos senhores para protestar contra a ‘guerra colonial’. Durante horas seguidas, no meio de cartazes publicitários alusivos aos fins da reunião, os contestatários, entre os quais havia católicos militantes, antigos católicos e outros que não eram, que nunca tinham sido, nem faziam tenção de ser católicos, iam entremeando as missas e as rezas com discursos e objurgatórias contra a defesa do Ultramar e distribuíam panfletos nesse sentido. As autoridades eclesiásticas nada fizeram para pôr termo ao escândalo. A autoridade civil teve de intervir. [...] A polícia entrou na capela e cordatamente convidou as pessoas presentes a sair” (“Depoimento”, pág. 84). Estava perdido.

As razões da repressão eram evidentes: tratava-se da questão decisiva para a ditadura, a guerra colonial, sabendo-se ainda que o Papa tinha recebido líderes de movimentos da luta armada em três colónias portuguesas; e entre os jovens crescia a contestação. Ao mesmo tempo, o surgimento do Expresso revelava a deslocação da ala liberal da União Nacional, o que se manifestaria logo de seguida no tumulto em S. Bento, com Miller Guerra a defender o direito dos ocupantes da capela e a sua demissão de deputado, seguindo-se à de Sá Carneiro, depois de uma querela sobre liberdade de imprensa. A notícia destes acontecimentos multiplicou o isolamento do regime, que temia a cisão interna e o Expresso, o afastamento de católicos, a revolta juvenil e, mais do que tudo, a inevitável derrota na guerra.

O modo como circulou esta informação da Capela do Rato é por isso um bom estudo de caso sobre a comunicação de há 50 anos, que se baseava na dualidade e distinção entre a intermediação formal, que cresceu com o novo jornal e outros que resistiam à censura, e a potente galáxia de informação pelas redes pessoais daquele tempo. Assim, lembrar esse episódio serve não só para homenagear aquela mudança como para refletir sobre a ameaça atual: a transmutação dessa dualidade está agora a sufocar a comunicação social.

Os fabricantes de público

Duas transformações revolucionaram desde então esta dualidade de modos de comunicação. A primeira foi o sucesso da modernização, em particular da televisão: supôs-se que ela criaria majestaticamente os seus próprios públicos, tornando-se a forma dominante da gestão do senso comum e, portanto, alcandorando-se ao estatuto de fazedor de reis. Assim aconteceu. O crescimento da televisão, sob o controlo por grandes grupos mundiais, a que correspondeu a padronização dos seus conteúdos, confirmou este projeto. Assim, as técnicas da conformação social foram-se tornando mais sofisticadas, usando intensamente a sublimação (a criação de emoções escapistas, por exemplo, a deificação da imagem do desportista ou a erotização da publicidade), a distração (o entretenimento dos concursos, telenovelas e programas que criam o ritmo do quotidiano) e a banalização (a dramatização repetitiva ou fabricação de notícias-choque), constituindo-se num mundo reflexo em que se dissolvem as perceções.

Se não conseguir vencer o seu maior inimigo, a comunicação social morrerá nesta poluição idiocrática ou transmutar-se-á nela

A intermediação formal — jornais, rádios e TV — tornou-se hegemónica e, em consequência não indesejada, ocupou o espaço político. No entanto, este sucesso abriu a porta para a ascensão de bufões, uma nova “classe” de ícones (de Berlusconi a Trump, ou os que, por serem figuras televisivas, reclamam o direito ao poder, uma mania que não é só portuguesa): não há espaços vazios na adaptação do poder social. Deste modo, tem-se quebrado a vinculação a regras que prometiam a intermediação na esfera pública para ampliar o espaço democrático. Pelo contrário, se gestão de senso comum em modo de televisão obsessiva criou reis, descobrimos que são Frankensteins. Mas o pior pesadelo ainda estava para vir.

A idiocracia

É no segundo pilar da dualidade da comunicação na sociedade que a maior transformação tem vindo a ocorrer, com a absorção das redes pessoais de contacto pelas redes empresarializadas das maiores potências mundiais, as empresas da internet. A sua estratégia tem sido domesticar o senso comum, impondo uma psicologia do frenesim (em 2013, a Google indicava que os utilizadores se impacientam com a espera de 250 milissegundos a abrir uma página, um piscar de olhos), da desatenção (a capacidade de concentração em leitura reduziu-se para menos de um minuto), de alvoroço (toca-se, em média, no telemóvel quatro mil vezes por dia), de dependência (um quinto dos jovens portugueses joga a dinheiro na internet), de superficialidade (o conhecimento transformado numa viagem turística ou em bolhas confirmativas do que já se pensa). Quanto mais rede social, maior é o isolamento individual.

O tambor das informações na sociedade deixou de ser a intermediação profissional pelas empresas de comunicação e passou a ser a comunicação pelas empresas de redes. Essa mudança está a anular o conhecimento que se baseava no consumo de jornais (que se deslocam para o digital para tentarem concorrer com a velocidade das alternativas) e de televisão (que está presa numa barreira geracional) e ainda altera a atuação de jornalistas (pressionados a disputar o efeito bolha, são tentados a gritar para serem ouvidos e a substituir a informação que segue regras pelo panfleto político que segue favores).

Olhando para 50 anos atrás, quando a comunicação era a democracia contra a ditadura, o panorama inverteu-se: o novo modo da ressonância passou a ser a vida no capitalismo de vigilância. Por isso, se não conseguir vencer o seu maior inimigo, a comunicação social morrerá nesta poluição idiocrática ou transmutar-se-á nela. Nesse caso, nenhum jornal terá mais 50 anos pela frente, nem 10.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 6 de janeiro de 2023

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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