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A corrupção sabe tão bem

Olhemos para as condições que protegem os poderes financeiros das regras da responsabilidade: um bom caso de estudo é o capital angolano em Portugal.

Há quatro dias, a justiça norte-americana apontou três executivos de associações de futebol (Argentina, Paraguai e Brasil) que teriam estado envolvidos na compra de votos para levar o Mundial à Rússia (2018) e ao Catar (2022). São também indiciados diretores da 21st Century Fox, que adquiriu os direitos televisivos daqueles campeonatos. Este processo alerta para o risco de, atentos ao fingimento de que o campeonato não decorre num país que despreza direitos humanos, estarmos porventura a ignorar como a FIFA se impõe contra as opiniões públicas, o que não resulta do histriónico sr. Infantino.

Se me permitem a extrapolação, a facilidade com que o Catar comprou o Mundial também explica por que não vai haver uma comissão de inquérito sobre o caso Costa-Costa. A raiz destes poderes é dinheiro que não se quer mostrar, nem num caso nem no outro.

A técnica de olhar para o lado

A FIFA tem mais membros do que a ONU e receberá 4,5 mil milhões de dólares por estes direitos televisivos. É uma sociedade financeira e um poder político que verga Governos e determina o espetáculo que, convenha-se, domina a vida. Enfunado por esse sucesso, navegou até aqui por entre escândalos sucessivos: o delegado de Trindade reconheceu ter recebido cinco milhões de dólares para votar pela Rússia para o torneio de 2018, o da Guatemala foi mais barato e confessou um milhão. Já se tinha sabido de casos semelhantes no Mundial da África do Sul. O que o caso desta semana indica é que o mesmo se terá passado com o Catar.

Em 2015, sete executivos da FIFA foram acusados pela justiça norte-americana e detidos na Suíça. Dois dias depois, no meio da tempestade, Blatter foi reeleito pela quinta vez para a presidência da organização, e só meses mais tarde viria a ser suspenso. Entretanto, dos 50 acusados nos EUA por corrupção no futebol 27 já se declararam culpados. A bola roda no relvado, os nossos governantes vão-se fazer filmar nos estádios e, como pergunta Ricardo Araújo Pereira, que é que mais importa?

Por favor, um inquérito angolano

Separemos então, por um segundo, estes casos de corrupção da chuva de dinheiro em que medram. Como diz seraficamente o nosso primeiro-ministro, à justiça o que é da justiça. Olhemos então para as condições que protegem os poderes financeiros das regras da responsabilidade: um bom caso de estudo é o capital angolano em Portugal.

Abuso, disseram alguns a propósito do telefonema entre o primeiro-ministro e o governador do Banco de Portugal sobre Isabel dos Santos. Houve mesmo quem propusesse uma comissão de inquérito. Seria curioso perguntar-lhes o que conversaram, sendo que cada um terá a sua versão e não há meio de apurar a verdade. Teve então o PSD um assomo de prudência e evitara a comissão, pois percebeu que, defunta a acareação impossível, ficaria destapado o ninho de vespas — e nenhum desses partidos quer as respostas, nem sequer as perguntas que se fariam sobre Isabel dos Santos.

A facilidade com que o Catar comprou o Mundial também explica por que não vai haver uma comissão de inquérito sobre o caso Costa-Costa

O facto é que ela nunca foi questionada até ao fim do poder do seu pai e à explosão do Luanda Leaks. Foi aliada do grupo Amorim, da PT e da Sonae. A sua rede tinha participações no BPI, no BCP, no BPN, depois no EuroBic — é curioso que agora o ex-governador alegue reservas que nunca impediram esta pesada presença acionista em grande parte da banca portuguesa. Deram-lhe tudo, e quando João Semedo questionou no Parlamento o caso BIC-BPN era uma voz quase isolada: “O BIC recebe um banco acabado de refinanciar com 600 milhões, mais um financiamento de 167 milhões para crédito malparado. Para sermos completamente claros, o Governo entrega 767 milhões ao BIC para o BIC comprar o BPN por 40 milhões de euros.” Pois.

E tanto era o consenso que Luís Todo Bom, o porta-voz do PSD para a economia, afirmava em 2012 que “o que se tem escrito sobre os líderes empresariais angolanos mais mediáticos, como a engenheira Isabel dos Santos e o general Kopelipa, comporta grandes incorreções e imprecisões, incluindo algumas afirmações absolutamente delirantes”. Proença de Carvalho garantia que “não é por ser filha do Presidente que Isabel dos Santos teve o sucesso que está a ter”.

E querem mesmo perguntar?

A relação era tão estreita que um primeiro-ministro em exercício esteve no casamento de uma das filhas de Eduardo dos Santos. E era política: o presidente do CDS, que denunciava no Parlamento, em 1999, “o mais amplo bloco central da política portuguesa, (que) é o silêncio de chumbo a favor do MPLA em todas as circunstâncias — até daquelas que vos deviam envergonhar”, passou depois a dizer que Eduardo dos Santos seria “um dos líderes africanos mais respeitados” e foi o convidado de honra do seu congresso partidário. Dois ex-ministros dos Negócios Estrangeiros foram contratados por interesses angolanos: Monteiro foi chairman do BCP por indicação da Sonangol e Martins da Cruz foi administrador do Millenium Angola, garantindo que “José Eduardo dos Santos continuará a ser uma referência política, tal como Mandela foi na África do Sul”. Na Assembleia-Geral da Fundação Eduardo dos Santos estavam todas as grandes empresas de construção (Edifer, Mota Engil, Teixeira Duarte, Somague e Soares da Costa). Quando Manuel Vicente foi investigado pela justiça portuguesa, o ministro Rui Machete foi a Luanda pedir desculpa.

Acha mesmo que vai haver algum inquérito que pergunte por onde andou o dinheiro nesta novela?

Artigo publiado no jornal “Expresso” a 25 de novembro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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