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Nunca deixou de ser a economia estúpida

É sempre a economia que domina a sociedade moderna. Mais, tem sido a economia estúpida, a que gera crises e propõe soluções que as agravam, que nos tem governado.

Reza a lenda que Clinton teria pespegado numa parede da sua sede de campanha presidencial a frase “é a economia, estúpido”. Como foi eleito, a história passou a ser vista como a manifestação de um rasgo de inteligência tática. Ora, a frase tem pouco para chegar a tanto, de tão óbvia, e, além disso, é confusa demais para ser guia prático de candidaturas avulsas: se a primeira parte da mensagem parece suficientemente clara, a segunda é mais interpretável (o “estúpido” é o diretor de campanha que não percebeu a prioridade ou é o eleitor que não percebeu o recado?). Em qualquer caso, as eleições intercalares norte-americanas, em que um ex-Presidente mascara o seu desprezo pela democracia e faz esquecer o ataque das suas milícias ao Capitólio, serão apresentadas como mais uma confirmação desta evidência de La Palice.

De facto, no nosso mundo o que determina as eleições é a economia, ou o medo da economia, o modo como se viveu nos meses anteriores e, porventura, também como se pensa que se vai viver nos meses seguintes. A questão da imigração tem potência porque é enunciada como condicionamento da vida económica (ocuparão o lugar que tu não queres nas colheitas de framboesas!) e, mesmo quando outras questões se precipitam, como o direito das mulheres, é sempre pelo viés do poder económico tradicional que se apresentam as alternativas (as mulheres para casa). Tanto que assim é que o identitarismo religioso, a forma mais poderosa de polarização política no século XXI, se enroupa como uma doutrina económica, sob a forma da teologia da prosperidade — a graça divina promete-te rios de riqueza se obedeceres. A religião passa, deste modo, a ser a senha de reconhecimento do profeta, o líder mitológico, a promessa tranquilizadora do favor económico e a norma de exclusão de infiéis.

A transformação do Grand Old Party de Lincoln nesta amálgama de religiosidade fanática e de individualismo agressivo, colorida por racismo sistémico, é uma abissal mutação política que ameaça ser irreversível: ou o medo reabre o caminho ao trumpismo ou este não reconhece as eleições, pois só a obra demoníaca poderia retirar aos fiéis a sua supremacia.

Não faltaram os avisos

Se a literatura for um sintoma ou uma adivinhação das tendências desagregadoras de uma sociedade, concluir-se-á que não faltaram avisos nos Estados Unidos (o mesmo se diria da Rússia, por exemplo, mas será tema para outro dia). Há pelo menos três obras consagradas que discutiram estes perigos do autoritarismo e todas o fizeram usando o material reconhecível, a história de uma crise económica.

O primeiro exemplo é o do livro de 1935 de Sinclair Lewis “It Can’t Happen Here” (“Isso Não Pode Acontecer Aqui”, D. Quixote). Lewis tinha sido, em 1930, o primeiro escritor norte-americano a ganhar o Nobel, estava nos píncaros da fama e queria alertar os seus compatriotas para o perigo fascista, que já dominava Itália, Portugal e a Alemanha e se espalhava (o rei inglês seria afastado por isso mesmo no ano seguinte ao do livro). No romance, passado no futuro imediato, o senador Windrip, um populista, vence Roosevelt nas eleições de 1936 na base de uma campanha sobre a economia: prometeu dar cinco mil dólares a cada cidadão e recuperar os “valores americanos”. Segue-se uma época tumultuosa, com divisões no regime, há um ataque militar à Casa Branca e tudo termina numa guerra civil.

Ou o medo reabre o caminho ao trumpismo ou este não reconhece as eleições, pois só a obra demoníaca poderia retirar aos fiéis a sua supremacia

O segundo exemplo é o de “The Man in the High Castle”, de Philip K. Dick (1962; “O Homem do Castelo Alto”, Relógio D’Água), que descreve a vitória do Eixo na Guerra, Roosevelt tinha sido assassinado no início do seu mandato, Washington é destruída por uma bomba atómica e os nazis e os japoneses dividem o mundo, Martin Borman lidera a Alemanha, mas tudo pode ser uma ficção dentro da ficção. O terceiro é o livro de 2004 de Philip Roth “The Plot Against America” (“A Conspiração contra a América”, D. Quixote): Roosevelt foi derrotado em 1940 por Lindbergh, simpatizante do nazismo, que instala um regime apoiado no terror do Ku Klux Klan. Mas o novo Presidente desaparece e, no meio do caos, Roosevelt consegue ganhar as novas eleições em 1942, pouco antes do ataque dos japoneses a Pearl Harbor.

Economia estúpida

Os três livros sobre o abismo autoritário giram à volta da crise de 1929 e de Roosevelt, que então representou a resposta tanto à depressão quanto à guerra que se lhe seguiu. Assim, partilham um aviso: foi a economia do liberalismo, cuja vertigem especulativa levou ao dominó da falência de empresas e bancos e ao desemprego de um quarto dos trabalhadores, que abriu a porta ao desespero que criou o autoritarismo. A modorra que anestesiara a vida pública já tinha sido tratada por Lewis numa sátira famosa, “Babbitt”, em 1922: o senhor Babbitt é o protótipo do tédio, tem um breve assomo de rebeldia e depois volta à sua vida conformada, era o “sonho americano”. Quando a depressão fez explodir este sonho, os espíritos animais foram soltos.

É, portanto, sempre a economia que resume os poderes das forças sociais que domina a sociedade moderna. Mais, tem sido a economia estúpida, a que gera crises e propõe soluções que as agravam, que nos tem governado; não é a de Roosevelt, mas antes a que a precedeu. Portanto, à sua maneira, a frase de Clinton estava certa e explica como Trump será candidato daqui a dois anos.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 11 de novembro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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