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“Hilton” para universitários ou um país que não é para pobres

Costa vai apregoando políticas de esquerda enquanto abre portas ao “mercado”, o mesmo que vai desenhando um país mais desigual, menos acessível aos jovens e com menores perspetivas de garantir um futuro melhor para a maioria.

O ensino superior é, cada vez menos, sinónimo de igualdade de oportunidades ou de alavanca de equidade social. Pelo menos, em Portugal. Se o preço exorbitante da maior parte dos mestrados já fazia prever um abismo entre os pais que têm e não dinheiro para os financiar, o problema agrava-se, ano após ano, em relação ao preço do alojamento universitário.

Ou seja, entre os que têm e não verba para fazer face aos valores galopantes que os senhorios pedem por um quarto. Ou menos do que isso. É o mercado a funcionar, dirão alguns. Talvez seja a especulação e a ganância a dividir os jovens do país. Uma triagem económica que se vinca continuamente nas mais variadas vertentes da sociedade portuguesa.

Parasitas” em versão caseira

As notícias multiplicaram-se no início do ano letivo e algumas parecem saídas de uma versão tosca do fabuloso filme “Parasitas”, a obra-prima de Bong Joon-ho que dominou a edição de 2020 dos Óscares de Hollywood.

Basta fazer uma ronda pelos jornais de setembro para conhecer casos bizarros de jovens a pagar 300 euros por uma despensa – sim, leu bem - ou de que os proprietários retiraram do mercado 80 por cento dos quartos que seriam para estudantes universitários.

Enquanto a residência universitária a preços acessíveis há muito prometida pelo Executivo continua a ser uma miragem no centro da Av. 5 de outubro, em Lisboa, vão nascendo, na capital e no centro do Porto, residências de luxo a valores que muitos pais não levarão para casa ao final do mês.

Muitas têm comodidades como piscina, sauna, ginásio, salas de jogos e até cinema. O mercado das residências “premium” ou de luxo parece crescer no sentido contrário das iniciativas do Governo para garantir alojamento a quem não pode pagar estadias nos novos “Hilton” para estudantes, que agora nascem como cogumelos nas maiores cidades do país.

De acordo com uma reportagem do “Notícias Magazine” publicada este mês, a oferta de residências universitárias de luxo vai duplicar até 2024, sendo que, só em 2020 e 2021, abriram 10 novas unidades privadas de luxo, números que têm tendência a “explodir” nos anos mais próximos.

Quer isto dizer que o alojamento para universitários pode vir, dentro de pouco tempo, a ser um luxo que muito poucos podem pagar: quem tem pais com dinheiro ou estudantes estrangeiros de países mais abastados.

O Nido Campo Pequeno é um bom exemplo do novo paradigma. Embora esteja ainda em fase de construção, os quartos mais pequenos – com 12 m2 – e “no mercado” pela módica quantia de 650 euros mensais estão já esgotados. A partir daí, os valores são sempre a subir e podem chegar aos 900 euros por mês. Uma pechincha, portanto!

Um plano anunciado duas vezes?

Como é seu apanágio, o Executivo de Costa apressou-se a vir para a comunicação social, em resposta (tardia, como é costume) às notícias que denunciam o panorama do alojamento universitário em Portugal. As parangonas não se fizeram esperar: “Mais 72 milhões para residências universitárias”, “PRR financia 15 mil camas de residências estudantis até 2026”.

Só que, já em 2018, António Costa havia anunciado um auspicioso Plano Nacional de Alojamento para o Ensino Superior, com o objetivo de criar mais de 12 mil camas, entre 2019 e 2022. A verdade é que, atualmente, estão registadas as mesmas 15 mil camas que estavam na altura do anúncio do “plano”.

Costa vai apregoando políticas de esquerda enquanto abre portas ao “mercado”, o mesmo que vai desenhando um país mais desigual, menos acessível aos jovens e com menores perspetivas de garantir um futuro melhor para a maioria. O alojamento universitário é só um exemplo desta “arte” de dizer uma coisa e fazer outra bem diferente. Ou, de avisar entredentes: emigrem, não sejam piegas!

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Jornalista
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