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O apocalipse manso e o exílio bucólico

As emissões continuam a crescer, mesmo que a cada ano se tornem mais brutais os sinais da emergência climática; as energias renováveis não substituem as fósseis, limitando-se a responder a parte do consumo que se vai ampliando.

Quando Umberto Eco reuniu em livro um conjunto de ensaios sobre o que então se começava a chamar “a sociedade da comunicação”, deu-lhe o título de “Apocalípticos e Integrados” (Relógio D’Água, 2015). O efeito do empreendimento provocou-lhe surpresa, como explicou mais tarde, dado que pensava que o livro pouco mais seria do que um resumo de ideias já discutidas, ilustrando-as com as suas predileções pessoais pela banda desenhada, pelo romance policial e pela cultura kitsch. Por isso, o livro é povoado pelos sons dos Platters, pelos diálogos dos “Peanuts” e pela memória juvenil de Dick Tracy e Flash Gordon. Ora, o que aconteceu foi que o argumento foi fervorosamente discutido, como aliás seria de esperar naqueles italianos anos 60. Em tudo isso há uma ideia velha que aqui venho usar, para discutir outra questão, e cito-a na sua roupagem ‘ecoísta’: o “super-homem nietzschiano [é] típico da cultura de massas da atualidade”, o que já muita gente tinha sugerido, acrescenta então que a sociedade de comunicação intensiva transformou o drama em que esse “super-homem” se moveria em farsa ou, ainda pior, em espetáculo, na medida em que o apocalíptico consola o leitor e a leitora, “porque lhe deixa entrever, sob o pano de fundo da catástrofe, a existência de uma comunidade de ‘super-homens’ capazes de se elevarem, quanto mais não fosse através da recusa, por sobre a banalidade média”. Queira-se ou não, a consolação é a pior condenação que se pode imaginar para uma tragédia, e se a filosofia política se perguntava, pelo menos desde Spinoza, se a indignação e o medo podem suscitar a revolta, a resposta destes “apocalípticos” de Umberto Eco é que não: limitam-se a consolar, ao prometerem a atitude heroica.

Os “colapsólogos” são então uma forma contemporânea destes apocalípticos consoladores. O termo parece ter sido crismado por Pablo Servigne, um jovem engenheiro agrónomo e biólogo francês que, com Raphaël Stevens, publicou há meia dúzia de anos o ensaio “Colapsologia: Como Tudo Se Pode Desfazer, Pequeno Manual de Colapsologia para Uso das Gerações Atuais”, anunciando que antes do final da década haverá um “naufrágio social”. Servigne, que estudou a vida das formigas e nelas encontrou um desmentido das leituras deterministas do darwinismo social, retoma as lições dessa existência simples e propõe uma alternativa para o tal colapso iminente, que seriam as cooperativas e aldeias, com o regresso a redes de proximidade e de consumo limitado. A inspiração é certamente discutível, dado que as formigas, com a sua notável instituição social, são também um exemplo de obediência piramidal que pouca gente parece querer replicar; e ainda será mais difícil a passagem da metáfora à vida humana, com as tais aldeias românticas.

Com ou sem colapso até 2030, temos pela frente calamidades sucessivas

No entanto, há pelo menos dois fundamentos sólidos para o medo do colapso. Em primeiro lugar, temos hoje melhor conhecimento científico sobre a fragilidade dos sistemas ecológicos e a insustentabilidade das medidas correntes, que, como afirma Guterres, correspondem a “mentiras dos governos” para iludir as opiniões públicas. Em 10 anos, malgrado as Conferências da ONU e as juras internacionais, a parte dos combustíveis fósseis no mix da energia utilizada passou de 80,3% em 2009 para 80,2%; o uso anual do carvão só recuou em média 0,3% em 20 anos e agora voltou a crescer; ao passo que só nos últimos cinco anos o uso do gás natural aumentou 2,6% e o do petróleo 1,5%. Portanto, as emissões continuam a crescer, mesmo que cada ano se tornem mais brutais os sinais da emergência climática; as energias renováveis não substituem as fósseis, limitando-se a responder a parte do consumo que se vai ampliando. Em segundo lugar, o peso político dos produtores de combustíveis fósseis tem-se avantajado, como se verifica na UE com a viragem da guerra na Ucrânia e no abandono do diálogo entre os EUA e a China para medidas energéticas responsáveis. Com ou sem colapso até 2030, temos pela frente calamidades sucessivas.

Ora, para que o aumento da temperatura média fique pelos 1,5°C, o que implicaria viver no regime dos desastres atuais, seria necessária uma redução de CO2 de 59% até 2030 e de 100% até 2050. Nada disso parece politicamente acessível, tanto mais que metade das emissões são geradas pelos 10% mais ricos, os que têm força para proteger o privilégio. Além disso, a volúpia com que dirigentes europeus discutem o novo gasoduto, a começar por Scholz e Costa, demonstra que mesmo os mais vocais pelas medidas climáticas são os primeiros a obedecer à lógica cumulativa do egoísmo fóssil. Acresce ainda que é mais fácil dizer do que fazer, e os custos da transição climática exigem um gigantesco investimento público (no Reino Unido liberal, o cálculo governamental é de um aumento de 21% do rácio de dívida para atingir as metas de 2030). Não surpreende que o chefe do departamento de investimento da HSBC Asset Management, Stuart Kirk, se tenha tornado famoso por garantir que as medidas climáticas “não são simplesmente um risco financeiro que devamos considerar”.

Por isso, os colapsólogos partilham com todos os ambientalistas uma convincente ata de acusação aos governos. O problema é que nos querem consolar. E, ao sugerirem a fuga bucólica para a aldeia, desistem de responder ao vírus, que continua à solta e até agradece o silêncio e o exílio de quem se lhe opõe.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 26 de agosto de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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