You are here

O sadomonetarismo à espreita

Este impulso inflacionário é simplesmente a tradução do poder de empresas, e é por isso que alguns países decidiram taxar os lucros extraordinários obtidos por esta via. Em Portugal isso nunca acontecerá. Pelo amor da santa!

Há três explicações possíveis para o salto da inflação a que estamos a assistir. A primeira, a de uma parte da direita, é que se trata do efeito do excesso de procura, agravada pelos Governos gastarem demais em apoios sociais durante a pandemia, enquanto os bancos centrais inundavam as economias com liquidez. A segunda, mais tradicionalista, é que a oferta caiu, dadas as ruturas nas cadeias de produção e sobretudo com o efeito da guerra ucraniana nos preços da energia. A terceira, mais crítica, é que as margens das empresas que condicionam os preços dispararam. A favor da primeira explicação, e parcialmente da segunda, está o facto de a inflação ter crescido já antes da guerra, mesmo que os gastos em solidariedade durante a pandemia não se tenham traduzido em grande aumento do consumo, menos ainda do investimento. E a quebra das cadeias de produção é evidente. Em todo o caso, escreve Paul Krugman no “The New York Times”, nada justifica as propostas sadomonetaristas que agora pululam como cogumelos no outono.

As margens de lucro nos EUA atingiram um máximo em 2021 – Fonte Roosevelt Institute, “The New York Times”

As margens de lucro nos EUA atingiram um máximo em 2021 – Fonte Roosevelt Institute, “The New York Times”

Uma das razões para essa recusa está neste gráfico, também publicado pelo jornal, e que demonstra que a margem de lucro (a diferença entre os preços fixados e o custo marginal das empresas) atingiu máximos históricos, desconhecidos desde há 70 anos (sobretudo nos seguros e finança, que não sofrem de ruturas de cadeias de produção, imobiliário e energia). Assim sendo, este impulso inflacionário é simplesmente a tradução do poder de empresas, e é por isso que alguns países decidiram taxar os lucros extraordinários obtidos por esta via. Em Portugal isso nunca acontecerá. Pelo amor da santa!

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 1 de julho de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
(...)