You are here

Combater a NATO em tempos de cólera

A condenação inequívoca e consequente da agressão militar à Ucrânia inscreve-se no mesmo compromisso com a paz que nos leva a combater o branqueamento, alargamento e submissão nacional e europeia à NATO, mesmo em circunstâncias muito mais difíceis. Por José Gusmão.
Foto de NATO North Atlantic Treaty Organization, Flickr.

A invasão da Ucrânia já gerou consequências humanitárias massivas. Às vítimas militares e civis, somam-se milhões de refugiados obrigados a sair do seu país, sem perspetivas de regresso e sem saber o que irão encontrar quando voltarem. Independentemente da duração da guerra, os ucranianos que voltarem, voltarão a um país destruído. As consequências são também globais. A guerra, as sanções e contra-sanções geram uma crise energética a que se soma o oportunismo dos grandes gigantes dos oligopólios da energia. As primeiras vítimas são os pobres e o combate às alterações climáticas. As forças que já se opunham à transição energética aproveitam a guerra para conseguir mais algumas vitórias para o combustível fóssil. A importância da Ucrânia para o fornecimento de bens alimentares, nomeadamente cereais, coloca todo o planeta na iminência de uma gravíssima crise alimentar.

Como Portugal demonstra de forma particularmente gritante, também por opção dos Governo português, a fatura da guerra será exclusivamente suportada pelos de baixo. A radicalização que as guerras sempre trazem levou a medidas preocupantes de restrição da liberdade de imprensa, ao mesmo tempo que a extrema-direita apoiada e financiada por Putin vai passando pelos pingos de chuva, sem que ninguém no centro político lhe aponte o dedo. Não sabemos como terminará a agressão militar da Rússia à Ucrânia. Sabemos que o mundo vai mudar. Para muito pior.

Para além destas muitas e trágicas consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, uma das mais relevantes é a operação de limpeza de imagem da NATO e dos Estados Unidos, apesar das consequências bem vivas e presentes da sua atuação no passado recente e neste preciso instante. Muitos dos generais de sofá que apoiaram as maiores barbaridades, desde a invasão do Iraque até à ocupação da Palestina por Israel, renascem agora pacifistas de toda a vida. Defendem o direito internacional que sempre ignoraram. Apoiam o acolhimento de uns refugiados para rejeitar o de outros. Condenam os crimes desta guerra enquanto fecham os olhos a outros.

Os mais pudicos recuam discretamente no seu apoio a algumas das guerras atuais e recentes ou simplesmente não falam do assunto. Os mais ousados exibem orgulhosamente a sua dualidade de critérios, usando contra a agressão militar contra a Ucrânia todos os justos argumentos que rejeitaram e rejeitam nas guerras americanas.

A centralidade da Guerra na Ucrânia varreu do debate todos os outros conflitos, crimes e tragédias humanitárias que se mantêm por esse mundo fora. É essa reescrita da história e da atualidade que torna possível que tantos digam, sem se rir, que a NATO, a organização mais beligerante à face do planeta, é uma “organização defensiva”. Que haja quem considere que a organização a que aderiu a ditadura portuguesa, a organização em que a Turquia pede as cabeças dos curdos em troca do seu apoio à adesão da Finlândia e Suécia, a organização dirigida por um país que instaurou e protegeu mais ditaduras do que qualquer outro é um “clube de democracias”. Que haja quem assegure que a organização que espalha e agrava fatores de instabilidade nas zonas mais sensíveis do planeta, é um “fator de segurança global”.

Perante este cenário, coloca-se à esquerda uma dupla questão: (1) como combater a dualidade de critérios moços de recados da NATO sem lhe opor uma dualidade de critérios inversa, e (2) elaborar uma proposta mobilizadora que assegure uma política de segurança autónoma em relação aos Estados Unidos, uma necessidade já antiga que assume hoje contornos de urgência.

Felizmente, a resposta da esmagadora maioria da esquerda europeia à guerra na Ucrânia foi de condenação inequívoca. Quase nenhuma das forças do campo que o Bloco integra absolveu a NATO ou esqueceu os crimes os EUA cometeram e cometem por esse mundo fora. Ao condenar a guerra de ocupação da Rússia, a esquerda condena o que sempre condenou. E rejeita as justificações do costume. Fá-lo a partir da melhor tradição do movimento socialista, a histórica recusa do apoio ou ambiguidade sobre as guerras imperialistas. A condenação inequívoca e consequente da agressão militar à Ucrânia inscreve-se no mesmo compromisso com a paz que nos leva a combater o branqueamento, alargamento e submissão nacional e europeia à NATO, mesmo em circunstâncias muito mais difíceis.

É nesse quadro que se inscreve a necessidade de uma proposta para uma articulação de políticas de segurança. A esquerda pode optar por esconder-se desse debate, mas não nos enganemos. Essa opção servirá essencialmente para aumentar o apoio social a um status quo em gradual agravamento, ou seja, para reforçar o alinhamento europeu com a NATO e com os Estados Unidos. Por outro lado, a inviabilidade do projeto do exército europeu, que foi mais ou menos reduzido a uma distopia sem grande viabilidade política, deve abrir caminho a propostas para uma articulação europeia de Estados soberanos. Essa articulação deve servir, não para promover uma corrida ao armamento, que seria inteiramente desnecessária e contraproducente, mas sim para consolidar uma política de solidariedade europeia, incluindo o dever de assistência mútua (realmente defensiva). E deve, sobretudo, estabelecer uma capacidade de atuação conjunta autónoma que torne a Europa relevante e não um peão dos Estados Unidos.

Esta guerra mostrou de forma exuberante uma enorme contradição de interesses entre os Estados Unidos e a Europa, mesmo que com diferenças entre os seus membros. Não é, portanto, um acaso que os guerreiros da nossa direita e centro procurem ocultar essa contradição e insistam até à exaustão na importância da vocação atlântica da Europa. Ora, para quem tem andado e vai continuar a apoiar as aventuras americanas e a branquear as suas consequências, Europa boa é Europa obediente. Ou calada. A escolha à esquerda não é entre uma política de defesa soberana e uma defesa Europeia. Essa escolha, entre nós, está feita e a perda de soberania para uma autoridade europeia de defesa perde clientes a cada dia que passa. A escolha é a de saber se a esquerda tem uma política internacional de solidariedade que tire os seus países do reboque da NATO.

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
(...)

Neste dossier:

NATO: A maior e mais letal máquina de guerra

A Cimeira da NATO está marcada para os próximos dias 29 e 30 de junho, em Madrid. A par da resposta à guerra na Ucrânia, discutir-se-á o alargamento da Aliança, a extensão do seu papel e da sua área de influência e intervenção, nomeadamente no que respeita ao Indo-Pacífico. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

Combater a NATO em tempos de cólera

A condenação inequívoca e consequente da agressão militar à Ucrânia inscreve-se no mesmo compromisso com a paz que nos leva a combater o branqueamento, alargamento e submissão nacional e europeia à NATO, mesmo em circunstâncias muito mais difíceis. Por José Gusmão.

NATO: de mal a pior

É urgente reconstruir um movimento global de paz que se oponha a todas as alianças militares e aos contínuos aumentos maciços nos orçamentos de defesa. Por Gilbert Achcar.

NATO, a caminho do Mar da China

A luta pela Paz é inseparável da luta pelo desarmamento e pelo desmantelamento de alianças militares agressivas. Sabemos que isso significa fazer recuar o imperialismo, ou seja, o poder de um ou mais países, poder militar, económico e político que domina terceiros países. Por Luís Fazenda.

As origens da guerra, o papel da NATO e os cenários futuros na Ucrânia

Nesta mesa-redonda com três conhecidos académicos da tradição marxista, Étienne Balibar, Silvia Federici e Michael Löwy, Marcello Musto questiona as posições da esquerda face à invasão da Ucrânia, o papel da NATO e as perspetivas de paz.

A NATO volta a focar-se no Indo-Pacífico

A agenda da NATO para 2030 é estender o seu “alcance global”. A prioridade é o Indo-Pacífico, que agora faz formalmente parte da agenda. O alvo principal é a China, enquanto o alvo secundário é a Rússia, que a NATO acredita estar em apuros, tratando-a como tal. Por Anuradha Chenoy.

NATO: a defesa coletiva como cobertura da hegemonia

Graças à invasão da Ucrânia e da guerra subsequente, a organização a que, há poucos meses, fora diagnosticada morte cerebral ganha um elan totalmente imprevisto e um espaço de radicalização do seu conceito estratégico que a cimeira de Madrid consagrará sem rebuço e sem reservas. Por José Manuel Pureza.

Seria uma guerra “fria” a melhor notícia?

A história sugere que a geopolítica global raramente termina pacificamente. Dadas as circunstâncias, uma nova guerra fria – com as forças armadas em grande parte congeladas – pode ser uma boa notícia e isso é o mais deprimente possível. Por Michael Klare.

A ascensão da NATO em África

A ansiedade com a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) em direção à fronteira russa é uma das causas da atual guerra na Ucrânia. Mas esta não é a única tentativa de expansão da NATO. Por Vijay Prashad.

Terrorismo na Europa Ocidental: Uma Abordagem aos Exércitos Secretos da NATO

A existência desses exércitos clandestinos da NATO permaneceu um segredo bem guardado durante a Guerra Fria até 1990, quando a primeira filial da rede foi descoberta em Itália. Tinha o nome de código “Gladio”, a palavra latina para um espada curta de dois gumes. Por Daniele Ganser.