You are here

Uma primeira vez na Colômbia

Pela primeira vez na História do país, a Colômbia elege um presidente de Esquerda, Gustavo Petro. E o sinal pode ser farol: "Estamos a escrever História neste momento, uma História nova para a Colômbia, para a América Latina e para o Mundo".

Na Colômbia, uma primeira vez é quase uma revolução. Uma primeira vez na Colômbia - país joguete, permanentemente assolado por interesses múltiplos durante décadas, onde a paz social sempre foi uma miragem, devastada por violência e morte, narcotráfico e guerrilhas, golpes de Estado efectivos e sempre anunciados como pendências ao virar da esquina, pobreza, corrupção em todas as instâncias de poder - não é uma primeira vez qualquer. Implica uma mudança sistémica, um contragolpe na instabilidade, uma tentativa real de fazer algo novo, tentando abstrair do cansaço. Uma aspiração colectiva urgente, esperança-produto, a emergir democraticamente de uma eleição.

Pela primeira vez na História do país, a Colômbia elege um presidente de Esquerda, Gustavo Petro. E o sinal pode ser farol: "Estamos a escrever História neste momento, uma História nova para a Colômbia, para a América Latina e para o Mundo". Na sequência das recentes vitórias das esquerdas no Peru, Chile e Honduras, e no contexto de eleições presidenciais no Brasil em Outubro, a frase do discurso de vitória acerta em cheio na mudança de paradigma da política centro e sul americana.

Da polarização da segunda volta das eleições, sai derrotado o Trump que a Colômbia conseguiu oferecer ao Mundo: Rodolfo Hernández, multimilionário volátil e polémico, a apostar no medo, demagogia e redes sociais como o golpe de asa que permitisse confinar a História colombiana a mais do mesmo. Apesar de um crescimento do PIB projectado para 6,2%, a Colômbia vive com uma taxa de desemprego de 11,1% e 9% de inflacção. À crise social, económica e de segurança, à insatisfação popular patente nas ondas de protesto de 2019 e 2021, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro não responde com um programa qualquer.

À terceira tentativa, Petro ganha as eleições apresentando medidas de ruptura que mexem nas suas feridas mais internas e expostas, prometendo mais impostos sobre as 4000 maiores fortunas da Colômbia, uma reforma agrária que taxe fortemente as terras improdutivas, um sistema de saúde público universal, Ensino Superior gratuito com 50% de vagas para mulheres e a existência de um salário mínimo para mães solteiras. Apresenta a visão de um país que se quer na vanguarda mundial do combate às alterações climáticas, investindo em energia renovável e não em explorações de petróleo. Vence as eleições de braço dado à sua vice-presidente e provável sucessora em 2026, Francia Marquéz, negra e feminista, fundamental na vitória eleitoral na costa do Pacífico. Cumprir este programa, radical para os padrões do país, sem defraudar a maioria dos colombianos que o elegeram, não deixando de ser o presidente de todos os colombianos. De quase todos. O desiderato a que nenhum presidente eleito pode escapar, sobretudo quando representa uma ruptura epistemológica com o passado e uma expectativa de influência global.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 24 de junho de 2022

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
(...)