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As origens da guerra, o papel da NATO e os cenários futuros na Ucrânia

Nesta mesa-redonda com três conhecidos académicos da tradição marxista, Étienne Balibar, Silvia Federici e Michael Löwy, Marcello Musto questiona as posições da esquerda face à invasão da Ucrânia, o papel da NATO e as perspetivas de paz.
Étienne Balibar, Silvia Federici, Michael Löwy e Marcello Musto.

A guerra na Ucrânia começou há quatro meses. De acordo com o Gabinete do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, já causou a morte de mais de 4.500 civis e forçou quase cinco milhões de pessoas a abandonar as suas casas e tornar-se refugiadas. Estes números não incluem os militares mortes – pelo menos 10.000 ucranianos e provavelmente mais do lado russo – e os muitos milhões de pessoas deslocadas no interior da Ucrânia. A invasão da Ucrânia provocou destruição massiva de cidades e de infraestrutura civil que demorará gerações a reconstruir, assim como crimes de guerra significativos, como os cometidos durante o cerco de Mariupol, perpetrados pelas tropas russas.

Com o objetivo de analisar o que aconteceu desde o início da guerra, de refletir sobre o papel da NATO e de considerar possíveis futuros cenários, conduzi uma mesa-redonda com três reputados académicos da tradição marxista: Étienne Balibar, atualmente professor da Cátedra de Aniversário de Filosofia Europeia Contemporânea da Universidade de Kingston, em Londres, Silvia Federici, professora emérita de Filosofia Política da Universidade de Hofstra, em Hempstead, nos EUA, e Michael Löwy, diretor de investigações emérito do Centro Nacional de Investigação Científica em Paris. A discussão abaixo sumariada é o resultado de numerosos intercâmbios que aconteceram ao longo das últimas semanas, através de e-mail e telefonemas.

Marcello Musto

 

Marcello Musto (MM): A invasão russa da Ucrânia trouxe a brutalidade de volta à Europa e confrontou o mundo com o dilema de como responder ao ataque à soberania ucraniana.

Michael Löwy (ML): Enquanto Putin queria proteger as minorias russófonas da região de Donetsk, havia uma certa racionalidade nas suas políticas. O mesmo pode ser dito acerca da sua oposição à expansão da NATO para a Europa de Leste. Contudo, esta brutal invasão da Ucrânia, com uma série de bombardeamentos de cidades, com milhares de vítimas civis, entre as quais idosos e crianças, não tem justificação.

Étienne Balibar (EB): A guerra que se desenrola sob o nosso olhar é “total”. É uma guerra de destruição e terror travada pelo exército de um vizinho mais poderoso cujo governo quer anexar o outro país numa aventura imperialista sem possibilidade de voltar atrás. O imperativo urgente, imediato, é que a resistência ucraniana aguente e isso deverá ser apoiado através de ações e não de simples sentimentos. Que ações? Aqui começa o debate tático, o cálculo da eficácia e riscos da “defesa” e do “ataque”. Contudo, o “esperar para ver” não é uma opção.

 

MM: A par da justificada resistência ucraniana, há a questão igualmente crítica de como a Europa pode evitar ser vista como um ator na guerra e contribuir em vez disso, tanto quanto possível, para uma iniciativa diplomática que possa acabar com o conflito armado. Daí a reivindicação de uma parte significativa da opinião pública – apesar da retórica belicista dos últimos três meses – de que a Europa não deve participar na guerra. A primeira razão para isto é evitar mais sofrimento da populações. Porque o perigo é que, já martirizada pelo exército russo, a nação seja transformada num campo armado que recebe armas da NATO e passe a travar uma guerra prolongada em benefício daqueles que, em Washington, têm esperança num enfraquecimento permanente da Rússia e numa maior dependência económica e militar da Europa face aos Estados Unidos. Se isto acontecesse, o conflito ultrapassaria o quadro da legítima defesa da soberania ucraniana.

Aqueles que, desde o início, denunciaram a perigosa espiral da guerra que se seguiria ao desembarcar de armas pesadas na Ucrânia certamente não desconhecem a violência quotidiana que ali acontece e não desejam abandonar sua população ao poderio militar da Rússia.Não alinhamento” não significa neutralidade ou equidistância, como várias caricaturas instrumentais sugeriram. Não é uma questão de pacifismo abstrato como questão de princípio mas pelo contrário uma alternativa concreta diplomática. Isto implica medir cuidadosamente qualquer ação ou declaração para analisar se nos aproxima do objetivo chave na situação atual: ou seja, abrir negociações credíveis para restaurar a paz.

Silvia Federici (SF): Não há nenhum dilema. A guerra russa na Ucrânia deve ser condenada. Nada pode justificar a destruição de cidades, a morte de pessoas inocentes, o terror que milhares são forçado a viver. Foram violadas muito mais coisas do que a soberania com este ato de agressão. Contudo, concordo, também devemos condenar as muitas manobras através das quais os EUA e a NATO contribuíram para fomentar esta guerra e a decisão dos EUA e da União Europeia de enviar armas para a Ucrânia que vai prolongar a guerra indefinidamente. Enviar armas é particularmente questionável, considerando que a invasão russa poderia ter sido travada se os EUA tivessem garantido que a NATO não iria alargar-se às suas fronteiras.

 

MM: Desde o início da guerra, um dos principais temas de discussão tem sido o tipo de ajuda a providenciar aos ucranianos para se defenderem da agressão russa mas sem gerar condições que levariam a uma maior destruição da Ucrânia e à expansão internacional do conflito. Entre os pontos polémicos dos últimos meses tem estado o pedido de Zelensky para a imposição de uma zona de exclusão área sobre a Ucrânia, o nível de sanções económicas a ser imposto à Rússia e, mais significativamente, se se devem enviar armas para o governo ucraniano. Quais são, na vossa opinião, as decisões que deveriam ser tomadas para garantir o menor número de vítimas na Ucrânia e para prevenir uma escalada da guerra?

ML: Podemos fazer muitas críticas à Ucrânia atual: falta de democracia, opressão da minoria russófona, “ocidentalismo” e muitas outras. Mas não podemos negar ao povo ucraniano o seu direito de se defenderem contra a invasão russa do seu território feita com um brutal e criminoso desprezo do direito das nações à auto-determinação.

EB: Eu diria que a guerra dos ucranianos contra a invasão russa é uma “guerra justa”, no sentido mais forte do termo. Estou bem ciente de que esta é uma categoria questionável e de que a sua longa história no Ocidente não tem estado isenta de manipulação e de hipocrisia, ou de ilusões desastrosas, mas não encontro outro termo adequado.

Aproprio-me, portanto, dele mas especifico que uma guerra “justa” é aquela em que não é suficiente reconhecer a legitimidade de quem se defende contra uma agressão – o critério da lei internacional –, mas aquela em que é necessário empenhar-se ao seu lado. E é uma guerra em que mesmo aqueles que, como eu, pensam que qualquer guerra – isto é todas as guerras no atual estado do mundo – são inaceitáveis ou desastrosas, não tem a escolha de permanecer passivo. Porque a consequência disso seria pior. Por isso, sem entusiasmo, escolho: contra Putin.

 

MM: Compreendo o espírito dessas observações mas concentrar-me-ia mais na necessidade de impedir um conflito geral e, assim, na necessidade urgente de alcançar um acordo de paz. Quanto mais tempo isto demorar, maiores são os riscos de uma expansão da guerra. Ninguém está a olhar para o lado e a ignorar o que se está a passar na Ucrânia. Mas temos de compreender que quando uma potência nuclear como a Rússia está envolvida, sem nenhum movimento significativo a favor da paz, é ilusório pensar que a guerra contra Putin possa ser “ganha”.

EB: Estou terrivelmente assustado com a possibilidade de uma escalada militar, até nuclear. É aterrorizador e não está posto de parte. Mas o pacifismo não é uma opção. A necessidade imediata é ajudar os ucranianos a resistir. Não vamos começar a jogar com a “não intervenção” outra vez. A União Europeia já está envolvida na guerra. Ainda que não envie tropas, está a enviar armas – e penso que é correto fazê-lo. Isto é uma forma de intervenção.

 

MM: A 9 de maio, a administração Biden aprovou o decreto de empréstimo para a Defesa da Democracia Ucraniana de 2022: um pacote de mais de 40 mil milhões de dólares em ajuda militar e financeira à Ucrânia. É uma soma colossal, à qual deve ser somada a ajuda de vários países da União Europeia, e parece destinada a financiar uma guerra prolongada. O próprio Biden fortaleceu esta ideia a 15 de junho quando anunciou que os EUA iriam enviar ajuda militar no valor de mais mil milhões de dólares. Os abastecimentos cada vez maiores da NATO e dos EUA encorajam Zelensky a adiar as urgentes conversações com o governo russo. Para além disso, dado que as armas enviadas para muitas guerras no passado foram depois utilizadas com finalidades diferentes, parece razoável razoável equacionar se estes envios vão servir apenas para afastar as forças russas do território ucraniano.

SF: Penso que a melhor jogada seria que os EUA e UE garantissem à Rússia que a Ucrânia não irá aderir à NATO. Isto foi prometido a Mikhail Gorbachev na altura da queda do muro de Berlim, apesar de não ter sido colocado por escrito. Infelizmente, não há nenhum interesse em procurar uma solução.

Muitos na estrutura do poder político e militar dos EUA têm advogado e preparado um confronto com a Rússia desde há anos. E a guerra é agora convenientemente usada para justificar um aumento brutal da extração de petróleo e pôr de lado qualquer preocupação acerca do aquecimento global. Biden já recuou na sua promessa de campanha de parar de fazer prospeção nas terras nativas americanas. Também estamos a testemunhar a transferência de milhares de milhões de dólares – que poderiam ser usadas para melhorar a vida de milhares de americanos – para o complexo industrial-militar dos EUA, que é um dos principais vencedores desta gurra. A paz não chegará com uma escalada da luta.

 

MM: Discutamos as reações à esquerda sobre a invasão russa. Algumas organizações, apesar de serem uma pequena minoria, cometeram um grande erro político ao recusar condenar claramente a “operação militar especial” da Rússia – um erro que, para além de tudo o mais, vai fazer com que quaisquer denúncias de futuros atos de agressão pela NATO, ou outros, pareçam menos credíveis. Reflete uma visão ideologicamente limitada que é incapaz de conceber a política de uma forma que não seja unidimensional, como se todas as questões geopolíticas tivessem de ser avaliadas apenas em termos de tentativa de enfraquecer os EUA.

Ao mesmo tempo, demasiados outros à esquerda cederam à tentação de se tornar, direta ou indiretamente, co-beligerantes nesta guerra. Não me surpreendi com as posições da Segunda Internacional, dos Verdes na Alemanha, ou de alguns representantes progressistas do Partido Democrata dos EUA – apesar das súbitas conversões ao militarismo de pessoas que ainda na véspera se declaravam pacifistas terem sempre um efeito estridente, chocante. Estou a pensar nas muitas forças da chamda esquerda “radical” que perderam qualquer voz própria no meio do coro pró-Zelensky. Acredito que, quando não se opõem à guerra, as forças progressistas perdem uma parte essencial da sua razão de existência e acabam por serem engolidas pela ideologia do campo oposto.

ML: Eu começaria por relembrar que uma das “justificações” de Putin para a invasão da Ucrânia era um argumento anti-comunista. Num discurso que fez antes de começar a guerra, a 21 de fevereiro, declarou que a Ucrânia tinha sido “inteiramente criada pelos bolcheviques e pela Rússia comunista” e que Lenine era o “autor e arquiteto” deste país. Putin declarou que a sua ambição era restaurar a “Rússia histórica”, pré-bolchevique – ou seja, a Rússia czarista – anexando a Ucrânia.

EB: Putin disse que Lenin fez uma concessão desastrosa ao nacionalismo ucraniano e que se não o tivesse feito não haveria uma Ucrânia independente, uma vez que as terras ucranianas têm sido vistas por quem vive lá como uma parte da Rússia. Isto resume-se a tomar partido por Estaline contra Lenine. Claro, penso que Lenine estava certo na chamada questão das “nacionalidades”.

 

MM: Lenine escreveu que, apesar da luta de uma nação para se libertar de um poder imperialista poder ser utilizada por outro poder imperialista para seu próprio interesse, isto não deve mudar a política da esquerda a favor do direito à auto-determinação. As forças progressistas apoiaram historicamente este princípio, defendendo o direito aos Estados para estabelecer as suas fronteiras na base da vontade expressa da população.

ML: Não é uma coincidência que a grande maioria dos partidos da esquerda “radical” em todo o mundo, incluindo até aqueles mais nostálgicos do socialismo soviético, como os partidos comunistas grego e chileno, condenaram a invasão russa da Ucrânia. Infelizmente, na América Latina, forças importantes da esquerda e governos como o venezuelano, tomaram o lado de Putin ou limitaram-se a uma espécie de posição “neutral” – como Lula, o líder do Partido dos Trabalhadores no Brasil.

A escolha da esquerda é entre o direito dos povos à auto-determinação – como defendia Lenine – e o direito dos impérios a invadir e tentar anexar outros países. Não se pode ter as duas coisas porque são opções irreconciliáveis.

SF: Nos EUA, os porta-vozes dos movimentos pela justiça social e organizações feministas como o Code Pink condenaram a agressão russa. Tem sido assinalado, contudo, que a defesa da democracia da NATO e dos EUA é muito seletiva, considerando o historial da NATO e dos EUA no Afeganistão, Iémen, nas operações da Africom no Sahel e a lista podia continuar. A hipocrisia dos EUA sobre a defesa da democracia na Ucrânia fica também patente quando consideramos o silêncio seu governo face à brutal ocupação da Palestina por Israel e a constante destruição de vidas palestinianas. Também tem sido realçado que os EUA abriram as portas aos ucranianos depois de as terem fechado a imigrantes da América Latina, apesar de para muitos deles ser um caso de vida ou morte. À esquerda é certamente vergonhoso que a sua vertente institucional – a começar por Ocasio-Cortez – tenha apoiado o envio de armas para a Ucrânia. Também gostaria que os meios de comunicação social radicais fossem mais críticos do que lhes é contado a nível institucional. Por exemplo, porque é que a “África está a morrer à fome” por causa da guerra na Ucrânia? Que políticas internacionais tornaram os países africanos dependentes dos cereais ucranianos? Porque não mencionar as massivas apropriações de terras das empresas internacionais que levaram muitos a falar de uma “nova corrida à África”? Quero perguntar, uma vez mais: que vidas têm valor? E porque apenas alguns dos mortes suscitam indignação?

 

MM: Apesar do aumento do apoio à NATO, na sequência da invasão russa da Ucrânia – claramente demonstrado pelo pedido formal da Finlândia e da Suécia de aderir a esta organização – é necessário trabalhar mais intensamente para garantir que a opinião pública não veja a maior e mais agressiva máquina de guerra do mundo (a NATO) como a solução dos problemas de segurança global.

Nesta história, a NATO mostrou uma vez mais ser uma organização perigosa a qual no seu caminho de expansão e dominação unipolar, serve para alimentar as tensões que levam à guerra no mundo. Contudo, há um paradoxo. Quase quatro meses depois do início da guerra podemos dizer com certeza que Putin não apenas errou na sua estratégia mas também acabou por fortalecer – até do ponto de vista do consenso internacional – o inimigo cuja esfera de influência queria limitar: a NATO.

EB: Conto-me entre aqueles que pensam que a NATO devia ter desaparecido no final da Guerra Fria, ao mesmo tempo do Pacto de Varsóvia. Contudo, a NATO não tinha apenas funções externas mas também – e talvez principalmente – a função de disciplinar, para não dizer domesticar, o campo ocidental.

Tudo isto está certamente ligado a um imperialismo. A NATO é parte dos instrumentos que garantem que a Europa no sentido amplo não tenha uma autonomia geopolítica genuína face ao império americano. Esta é uma das razões pelas quais a NATO continuou depois da Guerra Fria. E, concordo, as consequências foram desastrosas para o mundo inteiro. A NATO consolidou várias ditaduras na sua esfera de influência. Apoiou – ou tolerou – todo o tipo de guerras, algumas hediondamente assassinas e envolvendo crimes de guerra. O que está a acontecer neste momento por causa da Rússia não mudou o que penso sobre a NATO.

ML: A NATO é uma organização imperialista, dominada pelos EUA e responsável por inúmeras guerras de agressão. O desmantelamento deste monstro político-militar, gerado pela Guerra Fria, é uma exigência democrática fundamental. O seu enfraquecimento nos últimos anos levou o presidente neoliberal francês, Macron, a declarar, em 2019, que estava em “morte cerebral”. Infelizmente, a criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia ressuscitou a NATO. Vários países neutrais – como a Suécia e a Finlândia – decidiram agora juntar-se-lhe. Tropas dos EUA estão estacionadas na Europa em números maiores. A Alemanha, que há dois anos se recusava a aumentar o orçamento militar apesar da pressão brutal de Trump, decidiu recentemente investir 100 mil milhões de euros em rearmamento. Putin salvou a NATO do seu lento declínio, talvez do seu fim.

SF: É preocupante que a guerra da Rússia na Ucrânia tenha produzido uma grande amnésia sobre o expansionismo da NATO e o seu apoio à política imperialista da UE e dos EUA. É uma boa altura para reler o livro de Daniel Ganser, Os Exércitos Secretos da NATO, e refrescar a nossa memória acerca dos bombardeamentos da Jugoslávia, do seu papel no Iraque, como levou ao bombardeamento e desintegração da Líbia – só para mencionar algumas das operações mais recentes. Os exemplos do desrespeito total e constituinte da NATO pela democracia que agora faz de conta que defende são demasiados. Não acredito que a NATO estivesse moribunda antes da invasão russa da Ucrânia. Antes pelo contrário. A sua marcha para a Europa de Leste e a sua presença em África demonstram o contrário.

 

MM: Esta amnésia parece afetar muitas forças de esquerda no governo. Contra os seus princípios históricos, a maioria parlamentar da Aliança de Esquerda na Finlândia votou recentemente a favor da adesão à NATO. Em Espanha grande parte do Unidas Podemos juntou-se ao coro do espetro parlamentar a favor de enviar armas para o exército ucraniano e apoiou um enorme aumento dos gastos militares que acompanharão a cimeira da NATO que será realizada em Madrid a 29-30 de junho. Se um partido não tem coragem para levantar a voz contra tais políticas, está a contribuir para a expansão do militarismo dos EUA na Europa. Esta conduta política subalterna já castigou muitas vezes os partidos de esquerda no passado, incluindo eleitoralmente, assim que haja essa ocasião.

EB: O melhor seria que a Europa fosse forte o suficiente para proteger o seu próprio território e haver um sistema efetivo de segurança internacional – ou seja, que a ONU fosse reformulada democraticamente e liberta do direito de veto dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Mas quanto mais a NATO se afirma como um sistema de segurança, mais a ONU entra em declínio. No Kosovo, na Líbia e, acima de tudo em 2013, no Iraque, o objetivo dos EUA e da NATO no início foi comprometer as capacidades da ONU para a mediação, regulação e justiça internacional.

 

MM: A história que ouvimos dos meios de comunicação social tem sido completamente diferente, com a NATO retratada como a única salvação da violência e da instabilidade política. E, por outro lado, a russofobia a espalhar-se na Europa, com cidadãos russos a experienciar hostilidade e discriminação.

EB: Um grande perigo – talvez o principal relativamente àquilo a que Clausewitz chamava o “fator moral” na guerra – está na tentação de mobilizar a opinião pública, que corretamente simpatiza com os ucranianos, para uma espécie de russofobia. Há meios de comunicação social que têm apoiado isto através de meias verdades sobre a história russa e soviética e confundindo intencionalmente ou não os sentimentos do povo russo com a ideologia do atual regime oligárquico. Uma coisa é pedir que haja sanções ou boicotes a artistas, instituições culturais e académicas, cujas ligações ao regime e aos seus líderes estejam provadas. Mas estigmatizar a cultura russa em si é uma aberração, até porque uma das poucas possibilidades de escapar a um desastre reside na própria opinião pública russa.

 

MM: Muitas das sanções contra indivíduos têm sido particularmente duras e contraprodutivas. Algumas pessoas que nunca expressaram qualquer apoio às políticas do governo russo estão a ser atingidas simplesmente porque nasceram na Rússia, seja qual for a sua opinião acerca da guerra. Estas medidas potenciam a propaganda nacionalista de Putin e podem levar os cidadãos a alinhar-se com o seu governo.

EB: É francamente obsceno exigir a cidadãos de uma ditadura policial como a Rússia de Putin que “tomem posição” se querem continuar a ser bem-vindos nas nossas “democracias”.

ML: Concordo. A russofobia deve ser rejeitada. É uma ideologia profundamente reacionária, como qualquer forma de nacionalismo chauvinista. Acrescentaria que é importante para a esquerda internacionalista que apoia a resistência do povo ucraniano contra a invasão russa também mostre solidariedade com os muitos russos – indivíduos, jornais ou organizações – que se opuseram à guerra criminosa de Putin na Ucrânua. Este é o caso de muitos grupos políticos e partidos russos, que se reclamam de esquerda, e que recentemente publicaram uma declaração a denunciar a guerra de agressão contra a Ucrânia.

 

MM: Terminemos com o que pensam sobre qual será o curso da guerra e que cenários possíveis.

EB: Apenas podemos estar terrivelmente pessimistas sobre os próximos desenvolvimentos. Por mim, acredito que as possibilidades de evitar um desastre são remotas. Há pelo menos três razões para isto. Primeira, uma escalada é provável, especialmente se a resistência à invasão continuar a existir; e pode não parar nas armas “convencionais” – cuja fronteiras com as “armas de destruição massiva” se tornou muito difusa. Segunda, se a guerra acabar num “resultado final” será desastroso de qualquer maneira. Claro que será desastroso se Putin alcançar os seus objetivos por esmagar o povo ucraniano e pelo encorajamento que traz a empreendimentos semelhantes; ou se for travado e repelido, com um regresso às políticas dos blocos nas quais o mundo fique congelado. Qualquer destes resultados traz um aumento do nacionalismo e do ódio que irá durar muito tempo. Terceira, a guerra, e as suas sequelas, atrasam a mobilização do planeta contra a catástrofe climática – de facto, ajudam a precipitá-la, e já muito tempo foi desperdiçado.

ML: Partilho estas preocupações, especialmente a que diz respeito ao atraso da luta contra as alterações climáticas que agora foi totalmente marginalizada pela corrida ao armamento de todos os países envolvidos na guerra.

SF: Também estou pessimista. Os EUA e outros países da NATO não têm a intenção de assegurar à Rússia que a NATO não se vai expandir até às fronteiras da Rússia. Assim, a guerra vai continuar com consequências desastrosas para a Ucrânia, Rússia e outros países. Veremos, nos próximos meses, como os outros países europeus serão afetados. Não consigo imaginar cenários futuros para além da extensão do estado permanente de guerra que já é uma realidade em muitas partes do muno e, uma vez mais, o desvio de recursos muito precisos para apoiar a reprodução social para fins destrutivos. Dói-me pensar que não tenhamos um movimento feminista massivo a ir para as ruas, a entrar em greve, determinado a acabar com todas as guerras.

 

MM: Também sinto que a guerra não vai parar em breve. Uma paz “imperfeita” mas imediata seria certamente preferível ao prolongamento das hostilidades mas muitas forças no terrenos estão a trabalhar para um resultado diferente. Sempre que um chefe de Estado se pronuncia dizendo que “vamos apoiar a Ucrânia até ser vitoriosa”, a perspetiva de negociações retrocede mais. Contudo, penso que é muito mais provável que nos estejamos a encaminhar para uma continuação indefinida da guerra, com tropas russas a defrontar o exército ucraniano reabastecido e indiretamente apoiado pela NATO. A esquerda deve lutar afincadamente por uma solução diplomática e contra o aumento de gastos militares, o custo dos quais recairá sobre o mundo do trabalho e que conduzirão a uma maior crise económica e social. Se isto acontecer, os partidos que ganham são os da extrema-direita que agora estão a deixa a sua marca no debate político europeu de uma forma ainda mais agressiva e reacionária.

EB: Para apresentar perspetivas positivas, o nosso objetivo deve ser a recomposição da Europa, no interesse dos povos russo, ucraniano e nossos, de uma forma que a questão das nações e das nacionalidades seja completamente repensada. E um objetivo ainda mais ambicioso seria inventar e desenvolver uma Europa maior, multi-linguística e multicultural, aberta ao mundo – em vez de tornar a militarização da Europa, por mais inevitável que pareça a curto prazo, o sentido do nosso futuro. O objetivo seria evitar o “choque das civilizações” do qual, de outra forma, seremos o epicentro.

ML: Para propor um objetivo mais ambicioso em termos positivos diria que devemos imaginar uma outra Europa e uma outra Rússia, liberta das oligarquias parasitárias capitalistas. A máxima de Jaurès “o capitalismo transporta a guerra assim como a nuvem carrega a tempestade” é hoje mais relevante do que nunca. Apenas numa outra Europa, do Atlântico aos Urais – pós-capitalista, social e ecológica – se pode assegurar a paz e a justiça. É um cenário possível? Depende de cada um de nós.


Marcello Musto é professor de Sociologia na Universidade de York, em Toronto. Os seus escritos estão disponíveis em www.marcellomusto.org

Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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