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O elogio da estupidez

Zelensky exige a garantia da adesão à UE “sem mas”, e todos os relativistas que nos governam retorcem as frases para explicar que não há “mas” e também não há adesão. Kissinger ensinou-os a todos.

Houve uma comoção com as palavras de Kissinger. Batalhões de comentadores lançaram-se contra o homem, que ataca o Ocidente ao estender a mão a um acordo com Putin (como Draghi e Macron). Da mesma forma, formou-se uma fronda denunciando os generais portugueses que, formados depois do 25 de novembro e nas doutrinas da NATO, são kissingerianos da escola realista e não acham que o mundo possa ser aplanado.

Há nisto uma vingança cósmica. Kissinger foi, por décadas a fio, o expoente do cinismo majestático: foi ele que garantiu, entre muitas façanhas, que Pol Pot representava o Camboja na ONU até 1991, apesar do detalhe dos três milhões de mortos e de ter sido derrubado pela invasão vietnamita de 1979. Era o que convinha a Washington e a Pequim, assim ficou. Esta doutrina recomenda que os poderes imperiais se adaptem, pelo que não há nada de novo na frase recente de Kissinger. Suponho mesmo que alguns dos hoje mais vociferantes contra ele o aplaudiram no passado pela mesma razão. Como se acomodaram à ocupação da Crimeia e, depois dela, festejaram o negócio de vistos gold e o envio de fortunas da oligarquia putinesca para Londonegrado, o que foi o caso do Governo português ou de Blair.

Agora, os tempos são outros. Agora, “não há mas”, como se diz em voz forte. Já não permitimos o “relativismo”, dizem os cardeais do relativismo, que, aliás, só pode ser enunciado por quem se coloca na posição absoluta de intérprete da certeza do bem. De facto, se o relativismo for definido não como a retórica adversarial, mas como uma descrição política, seria aceitar os campos da propaganda do Kremlin ou da Casa Branca, ou o silêncio sobre Bucha ou Gaza, os massacres de civis no Donbas, ou as armas proibidas em Falluja, a prisão dos uigures ou Guantánamo, ou até a morte do jornalista do “Washington Post” cortado aos bocados à ordem do príncipe saudita aliado do nosso Ocidente. Kisssinger, o mestre da hipocrisis, limita-se a navegar nestas águas.

Contra ele não vale a pena apelar à estupidez, como se tudo fosse simples e o crime fosse perceber os interesses que movem a guerra. Há mesmo “mas” em toda a vida humana. Repare-se, aliás, no exemplo desta semana: Zelensky exige a garantia da adesão à UE “sem mas”, e todos os relativistas que nos governam retorcem as frases para explicar que não há “mas” e também não há adesão. Kissinger ensinou-os a todos.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 3 de junho de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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