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O perigo são os salários?

Para Saraiva e para o Governo, o equilíbrio do efeito do custo da energia deve ser obtido pela compressão da procura com a redução salarial. Ninguém disse que a economia devia ser justa, pois não?

O Governo não diz isto com a mesma franqueza, mas alude a uma misteriosa espiral de preços que seria provocada se os salários compensassem a inflação. António Saraiva, num artigo no “Público” desta semana, disse-o com todas as letras: “Seria trágico que se procurasse compensar as perdas futuras provocadas pela inflação através do aumento agressivo dos salários. O resultado seria mais e mais inflação, destruição de empresas e desemprego. É por isso fundamental que as exigências sejam temperadas. Aumentar salários sem critério alimenta o monstro da inflação e semeia as condições para uma crise profunda e estrutural.” Há nisto tesouros de subtileza: as perdas são reconhecidas, mas no futuro (mesmo que já tenham ocorrido nestes últimos meses); o aumento de salários seria “trágico” e provocaria “mais inflação”, levando a uma crise “profunda e estrutural”. Como é bom de ver, tudo isto é uma elucubração sem sentido para concluir que quem trabalha deve sofrer em silêncio o custo da inflação (o “monstro”). O Governo, que quer que se fale o mínimo possível deste assunto, repete o argumento em dó menor, avisando que imporá a redução real dos salários e pensões porque desse modo evitará acelerar os preços, cuja subida é provisória, tudo voltará ao normal. E mais não diz.

Há aqui dois argumentos absurdos. Se os salários não foram corrigidos, não é essa a causa da inflação; logo, é noutras variáveis, como o preço da energia e dos alimentos, que se deve prevenir o “monstro”. Em segundo lugar, os preços não são um pêndulo e os rendimentos ficarão permanentemente desvalorizados. Por isso, se salários e pensões forem neutrais, ou seja, se aumentarem tanto quanto o índice dos preços, a procura gerada por estes rendimentos mantém-se e não há aceleração da inflação por essa via. Mesmo para as empresas é assim: no caso das mil maiores empresas nacionais, os custos financeiros pesam mais do que a massa salarial, pelo que a subida dos juros é ameaçadora, ao contrário do que acontece com a manutenção dos salários. Mas a conclusão importa: para Saraiva e para o Governo, o equilíbrio do efeito do custo da energia deve ser obtido pela compressão da procura com a redução salarial. Ninguém disse que a economia devia ser justa, pois não?

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 20 de maio de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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