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A fraude funciona, mas não faz falta

No mundo cripto não há contratos que sejam legalmente obrigatórios e controlados e as entidades emissoras e os seus fundamentos financeiros estão ocultados no nevoeiro da plataforma.

Nos últimos 14 anos, desde o lançamento do bitcoin, não se ouviu falar de outra coisa, é a revolução e o apogeu do indivíduo, a moeda foi finalmente salva das garras do Estado, tudo serão operações descentralizadas, todo o poder para mim, ou, como por cá se diz, o liberalismo funciona e faz falta. Daí foi um passo até que se montasse uma fronda nacional, que marcha do Governo até aos liberais, para garantir que Portugal seria o paraíso europeu do criptonegócio, prometendo imposto zero para atrair os empreendedores do ramo. Era o que faltava que rendimentos tão apetitosos pagassem imposto, querem tributar o suor do nosso rosto.

E então, como tem de acontecer com todas as bolhas, a das criptomoedas começou a tremer. No início desta semana, luna, uma moeda cripto “estável” que tinha prometido um rendimento de 20% ao ano e era suportada pela indexação ao dólar, tinha caído 14.359%. Todo o mercado cripto tinha perdido dois triliões de dólares, dois terços do seu valor. O bitcoin perdeu metade da sua cotação. As criptomoedas de Miami e Nova Iorque perderam 90% e 80%. Não podia ser de outra forma, estas criptomoedas são operações criadas por fundos de capital de risco e outros aventureiros financeiros, ou seja, são bancos sombra sem regras de solvabilidade ou cobertura de capital e fora do radar da regulação. A bolha é a sua vida, e a bolha acaba.

É nas regiões mais vulneráveis à obscuridade financeira que estão os centros deste sistema

A consequência é que, não havendo garantias de capital nem a liquidez assegurada pelo banco central, estes ativos financeiros não são moedas no sentido real e não funcionam como meios de transações, mas unicamente como ativos para especulação. Ao contrário da moeda pública e dos sistemas de pagamentos que nela se baseiam, no mundo cripto não há contratos que sejam legalmente obrigatórios e controlados, e as entidades emissoras e os seus fundamentos financeiros estão ocultados no nevoeiro da plataforma, sendo inverificáveis. Por isso mesmo, o valor destes ativos só depende da crença infundada no seu crescimento perpétuo. São esquemas Ponzi com a ingenuidade da fé numa tecnologia mágica, ou seja, precisam da crescente procura gerada pela aplicação de novas poupanças — o criptonegócio devora as poupanças dos crentes, alguns ganham muito e muitos perderão tudo. Nada de novo no planeta: o negócio da Dona Branca, em 1983, era deste tipo, prometia um juro de 10% ao mês contra os 3% anuais dos bancos e ia pagando ao cliente de hoje com o dinheiro do depositante de ontem.

Temendo este efeito de bolha, a China, que em 2019 era a origem de 75% da mineração de criptomoedas, proibiu-as no ano passado. Outros Estados discutem como controlar esse processo especulativo. Em consequência, a Rússia, que gera 11% da procura de bitcoins, recebeu na sua periferia a migração dos operadores chineses, que se instalaram no Cazaquistão (onde consomem 8% da energia do país). É nas regiões mais vulneráveis à obscuridade financeira que estão os centros deste sistema, como seria de esperar. Os nossos criptopromotores caseiros, que andam caladinhos, podem olhar para estes exemplos.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 20 de maio de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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