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A guerra refez a Europa, só não se sabe qual

Quanto mais emproados os discursos visionários, maior a incapacidade que mascaram. Mesmo que o suplemento de alma garantido pela autointoxicação macroniana seja simplesmente para esquecer.

Enquanto as tropas desfilavam em passo de ganso em Moscovo, perante o chefe exasperado, ouvia-se música sinfónica em Estrasburgo. A diferença foi notada para reforçar a alegação de que a guerra tem um efeito virtuoso na Europa, multiplicando um jorro de discursos pomposos, logo saudados pelos divulgadores como oratória capaz de magicar uma nova era. Como não podia deixar de ser, as falas mais eufóricas foram as de Ursula von der Leyen, que cumpriu os mínimos do “sonho da Europa”, e de Emmanuel Macron, que se dedicou ao “futuro”.

O Presidente francês, cuja desastrada presidência prossegue o desmantelamento metódico da política do seu país e favorece assim as condições para o maior ascenso da extrema-direita num dos países centrais do continente, tem usado o tema europeu como derradeiro recurso para fabricar uma identidade própria. Foi dele que nasceu a promessa, na campanha para a sua primeira eleição, de que todos os outros Estados-membros realizariam em poucos meses uma convenção para redesenhar a Europa. Ninguém o levou a sério e, no melhor dos casos, houve umas reuniões entre governantes e pequenas plateias, para fingir que o assunto era ponderado. Merkel veio a Portugal fazer o frete e a proposta da convenção ficou por aí. Cinco anos depois, perante uma segunda campanha francesa, lá se reinventou o tema com uma Conferência para o Futuro da Europa, encerrada esta semana com palavras valentes.

À boca pequena, os responsáveis europeus não alimentam qualquer dúvida: o consórcio já é ingovernável

Macron fez a festa com o seu discurso. Não para todos: lá disse que a Ucrânia esperará décadas pela adesão, o que permitiu o sarcasmo de Costa, que quer tanto como ele que essa adesão nunca ocorra, mas que limitou o prazo aos nove anos do processo português, como se fosse comparável — mas nada é para tomar à letra. No entanto, há uma solução, diz Macron, é criar a Nova Comunidade Política (NCP). A NCP seria uma entidade com países da União e de fora, que trataria em comum de questões candentes, como a segurança, transportes, energia e circulação de pessoas. Claro que tudo isto é bizarro, pois são precisamente esses alguns dos temas em que a UE não consegue decidir, menos ainda o conseguiria a novel NCP: transportes, ainda temos bitolas diferentes na ferrovia e a guerra entre companhias aéreas; segurança, é a NATO; energia, uns querem e outros não querem o gás russo; circulação de pessoas, paga-se à Turquia para reter os imigrantes. A União 1.0 não tem qualquer solução para estes problemas, menos teria uma inexistente União 2.0.

É por isso que o alargamento é impossível. À boca pequena, os responsáveis europeus não alimentam qualquer dúvida: o consórcio já é ingovernável, a tal ponto que nas vésperas da pandemia não tinha forma de se entender na questão orçamental, uns querendo o reforço e outros a redução das verbas comunitárias, nem na questão dos imigrantes, nem na política ambiental e energética, como se viu logo que o Nordstream2 foi posto em causa e ainda a guerra não tinha começado. Dizem os euroentusiastas que, tal como a crise do euro mudou a atitude do BCE, com a covid até se conseguiu uma ‘bazuca’. Portanto, elogiavam as regras como o livro sagrado, um dogma de fé; depois do fracasso das regras, as exceções passam a ser a doutrina inabalável, até à próxima inflexão. A dança retórica corresponde evidentemente a uma ideologia: tudo o que vier é certo, bem como o seu contrário, e é desse modo que se tem constituído a referência das elites europeias, agarradas a este sinal de poder sobre a credulidade popular. Daqui resulta uma equação irrefutável: quanto mais emproados os discursos visionários, maior a incapacidade que mascaram. Mesmo que o suplemento de alma garantido pela autointoxicação macroniana seja simplesmente para esquecer, como Costa tornou evidente.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 13 de maio de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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