Clareza perante a guerra

porJosé Manuel Pureza

02 de May 2022 - 11:40
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Clareza na condenação da invasão e da guerra, na defesa da autodeterminação, na exigência da extinção dos blocos militares, no empenho numa solução negociada que respeite o Direito Internacional e traga a paz de volta.

Nos próximos anos, toda a política será determinada pela guerra, pela definição de alinhamentos que ela está a propiciar e pela clareza das posições que as forças políticas tomarem em relação aos seus desenvolvimentos.

O Bloco de Esquerda tem uma linha política clara sobre o que está em causa nesta guerra e quero aqui enunciá-la.

Em 1999, no “Começar de Novo”, dissemos que, na Rússia, estava a emergir um Estado “onde a esfera pública surge como simples fachada legal da acumulação primitiva de economias mafiosas que traficam votos e influências.” Tínhamos razão e nunca alimentámos leituras desculpabilizadoras de um Estado assim nem do imperialismo que esse capitalismo mafioso alimentou e alimenta. O inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo.

O Bloco de Esquerda condena inequivocamente a agressão imperialista da Rússia à Ucrânia, com a mesmíssima convicção com que condenou as agressões imperialistas contra outros povos, como os do Iraque ou do Afeganistão. Não tomamos posição em função do imperialista de turno, a nossa posição é mesmo a de condenação do imperialismo, seja qual for o seu rosto.

O Bloco de Esquerda condena inequivocamente a invasão russa da Ucrânia porque estamos do lado da autodeterminação dos povos – na Ucrânia, como na Palestina, em Timor Leste ou no Saara Ocidental. É assim a coerência. O Bloco de Esquerda condena inequivocamente a invasão russa da Ucrânia porque estamos do lado dos que combatem o militarismo, os blocos militares e a barbárie da guerra. É assim a coerência. É tempo de sermos exigentes e a nossa primeira exigência é connosco mesmos: exigimo-nos coerência.

E, porque nos exigimos coerência, assumimos a solidariedade internacionalista como nossa bandeira. Solidariedade com o povo da Ucrânia, com a sua resistência, solidariedade com todas as vítimas diretas e indiretas desta guerra abjeta, solidariedade com o futuro das suas gentes (e por isso nos batemos pelo cancelamento da dívida externa que decorre dos seus esforços de resistência e de reconstrução). Solidariedade também com os homens e as mulheres da Rússia que, com valentia, se levantam contra a guerra e contra o imperialismo do Kremlin.

É em nome dessa solidariedade que rejeitamos o encarniçamento da guerra, pretendido pelos guerreiros domésticos que sonham com um armagedão purificador. A solidariedade com as vítimas e com a resistência é coisa séria, não é uma venda de ilusões nem um agit-prop militarista. A escalada da guerra só interessa aos imperialistas, não ao povo que por ela é dizimado.

Por isso, solidariedade séria e eficaz é a que põe toda a determinação na prossecução de uma solução negociada. O Bloco está do lado de todas as iniciativas que abram caminho para essa solução. Salvar vidas já e criar rapidamente condições para uma solução política justa que respeite o Direito Internacional – eis o que a responsabilidade solidária manda que seja feito. O mesmo imperativo de responsabilidade solidária que reprova o reforço da militarização e dos blocos militares – cuja extinção defendemos sem hesitação – e o sobrearmamento como soluções. Ou não aprendemos nada com o que se passou no Iraque, no Afeganistão e em todas as guerras que prometeram a paz perpétua e que só trouxeram a perpetuação de si próprias?

Em nome da solidariedade concreta e da seriedade, o Bloco faz seu o apelo para um empenhamento do Governo e da sociedade portuguesa na realização de uma conferência de paz para a Ucrânia, sob os auspícios das Nações Unidas, que trabalhe com a máxima lucidez e coragem uma solução política assente na neutralidade da Ucrânia e na retirada das forças invasoras, em respeito pela soberania e a integridade daquele país. E é também a solidariedade concreta e séria que nos fazem recusar a imensa chantagem fóssil sobre a paz. Só economias libertas da dependência dos combustíveis fósseis serão suportes da paz.

Clareza na condenação da invasão e da guerra. Clareza na defesa da autodeterminação. Clareza na exigência da extinção dos blocos militares. Clareza no empenho numa solução negociada que respeite o Direito Internacional e traga a paz de volta. Compromissos claros. É assim o Bloco de Esquerda.

Intervenção na IV Conferência Nacional do Bloco de Esquerda (30.4.2022)

José Manuel Pureza
Sobre o/a autor(a)

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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