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A China para lá da cortina

A China precisa de tempo. Não tem uma estratégia de colocação de tropas em bases no estrangeiro, ao contrário de Washington, e expande a sua influência por relações económicas.

Poderá a China, a maior beneficiária da globalização, manter a ponte entre esses dois mundos que se estão a separar? Não, não pode e provavelmente não quer. Em primeiro lugar, por uma visão política. O Governo de Pequim parece estar a mostrar a sua radical desconfiança em relação ao reforço da relação entre a UE e os EUA, com o alargamento da NATO e a expansão das suas ambições, o que se tem afirmado ao longo das últimas três décadas e ganhou nova tração com a invasão russa da Ucrânia. A interpretação deste processo pelas autoridades chinesas foi explicada, logo depois do telefonema entre Biden e Xia no dia 18 de março, pelo pivô da televisão chinesa, que resumiu o encontro afirmando que o Presidente norte-americano teria colocado ao seu colega chinês a seguinte questão: “Pode ajudar-me a derrotar o seu amigo para eu poder concentrar-me em derrotá-lo a si a seguir?”

O tom jocoso e o conteúdo dizem muito sobre a resposta de Pequim às pressões para se afastar da Rússia. Mesmo que o imbróglio da derrota russa depois de 50 dias de uma invasão fracassada seja percebido, e é bem percebido, Xi Jinping também sabe que, se disputa a futura liderança mundial, não pode recuar perante Washington. A razão é óbvia: o líder chinês não pode deixar de notar a formação de uma aliança militar dos EUA com a Austrália e o Reino Unido para o Pacífico; as forças estão a deslocar-se e a preparar-se no que será sempre o centro nevrálgico das estratégias de dominação.

Há ainda uma segunda razão para que a China procure o reforço da sua posição: a incerteza sobre os ritmos da crise de liderança norte-americana. Em resumo, ninguém aposta na continuidade de Biden e, mesmo que este tenha adotado a mesma política que Trump para a China, estar um ou outro a comandar a Casa Branca poderia implicar diferenças notáveis, pela imprevisibilidade da chefia republicana. Ora, do que a China precisa é de tempo. Não tem uma estratégia de colocação de tropas em bases no estrangeiro, ao contrário de Washington, e expande a sua influência por relações económicas, tanto em África como na América Latina como na Europa. Procura reforçar a sua capacidade tecnológica e ultrapassa os rivais em muitos terrenos, mas ainda é deficiente na produção de semicondutores e no sistema bancário, tal como ainda depende da Rússia em algumas das importações militares. Mas talvez a evolução mais notável seja a redução da relação financeira com os EUA: como se verifica pelo gráfico, ao longo da primeira década do século a relação mútua baseava-se no uso dos excedentes comerciais chineses para comprar dívida pública norte-americana, ou seja, os chineses pagavam aos EUA para lhes comprarem produtos, acumulando uma enorme reserva de títulos soberanos. Mas, a partir de 2011, a China limita-se a manter o stock, só detendo hoje cerca de 1,2 de um total crescente de 28 biliões de dólares de dívida colocada em todo o mundo. O Japão detém mais, e mesmo a soma do Luxemburgo, Suíça e Ilhas Caimão ultrapassa a China. É ainda uma interdependência intensa, a Rússia nunca alcançou nada de semelhante, mas que não haja ilusões: a China sabe que está a construir a sua outra metade do planeta. Não quer deixar ao seu adversário a livre escolha da forma de a enfrentar na economia e na política.

Dívida Pública dos Estados Unidos detida pela China

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 14 de abril de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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