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É mesmo o fim da globalização?

A rede financeira mundial fragmenta-se, com o risco suplementar do bloqueio da oferta de energia e alimentos. Haverá duas internets, dois sistemas de pagamentos e de comércio, duas economias que chocarão entre si.

Larry Fink, CEO da BlackRock, a maior agência mundial de gestão de investimentos, escreveu há dias que “a invasão russa da Ucrânia pôs fim à globalização que conhecemos nas últimas três décadas”. É provável que os próximos tempos confirmem a sua conclusão, sobretudo por se estarem a precipitar clivagens irrecuperáveis, mesmo sabendo que a decisão europeia desta semana, bloqueando o carvão russo, é uma encenação que pouco afeta o invasor. Em todo o caso, a nova cortina política reduzirá as relações comerciais e diplomáticas, acentuará o fosso entre a economia russa e as ocidentais e elevará a estratégia de tensão. Ainda só estamos no prelúdio. Mesmo que o desastre militar termine em retirada das tropas russas, estes efeitos agravar-se-ão. Nenhum dos lados da guerra tem recuo possível, pelo que a paz se tornou uma quimera.

Os efeitos da guerra ucraniana serão uma cisão planetária, necessariamente longa, dado que a Alemanha não pode cortar agora o fornecimento de gás russo e os EUA só estão em condições de substituir um terço desse fluxo até 2030. E, ainda que o gasoduto fosse interrompido, como mais de metade das exportações russas não têm por destino a Europa e mesmo sem elas o país continua a ter um superávite comercial, até nesse cenário de corte total dessas compras de energia Putin disporá de recursos suficientes para suportar o regime. A guerra continuará de todas as formas. A globalização que conhecemos desvaneceu-se.

O seu fracasso já tinha sido revelado pela vitória de Trump e pelo referendo do ‘Brexit’ em 2016, processos que evidenciaram a desestruturação dos dois pilares ocidentais da globalização. As eleições norte-americanas passaram a ser postas em causa, o que é um dos sinais essenciais de crise de liderança, enquanto a União Europeia é incapaz de definir as suas regras orçamentais ou até de proteger normas de funcionamento que foram as suas referências paraconstitucionais. A acentuar esta tendência, a guerra secular acelera o fracasso da globalização, o que cria um mundo mais imprevisível.

Nenhum dos lados da guerra tem recuo possível, pelo que a paz se tornou uma quimera

Fosse ou não essa a previsão de Putin, as sanções determinam mudanças estruturais no mapa dos poderes mundiais, ainda mais do que soluções emergenciais. O que elas atingem é a financeirização, o coração da globalização. É o caso de duas das principais medidas que foram adotadas desde os primeiros dias do conflito: a aceitação pela UE da partilha da tutela legal do sistema Swift com as autoridades norte-americanas (o Swift é a “arma nuclear na finança”, dizia Le Maire, o ministro francês das finanças) e a retenção das reservas da Rússia depositadas no Ocidente (segundo o historiador Adam Tooze, “se reservas de um banco central de um país do G20 confiadas a outro banco central do G20 deixam de ser sacrossantas, nada o é no mundo financeiro”). Em ambos os casos, as medidas criam desconfiança acerca da circulação de capitais e da função do dólar e do euro. Doravante, nenhuma dessas moedas será um meio de circulação universal, posto que a estratégia das sanções é criar dois planetas financeiros separados.

A rede financeira mundial fragmenta-se, com o risco suplementar do bloqueio da oferta de energia e alimentos. Haverá duas internets, dois sistemas de pagamentos e de comércio, duas economias que chocarão entre si: como 10 países detêm 75% da produção de todos os minerais, as fronteiras destes mundos vão atravessá-los. Depois da globalização, entramos no tempo da guerra infinita.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 8 de abril de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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