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Ainda a conta do supermercado

Nos últimos dias, confirmou-se aquilo de que muitos já suspeitavam: os ministros do governo PS não vão ao supermercado, pois o Executivo ignora as dificuldades porque a maioria dos portugueses estão a passar.

Nos últimos dias, confirmou-se aquilo de que muitos já suspeitavam: os ministros do governo PS não vão ao supermercado. Não porque não haja notícias de António Costa na fila da peixaria ou de António Costa Silva na zona das promoções de enchidos, mas porque simplesmente o Executivo ignora as dificuldades porque a maioria dos portugueses estão a passar.

E basta atentar à amplamente noticiada subida dos preços dos cabazes de bens essenciais, que triplicaram face ao aumento dos salários. Já para não falar de bens considerados não essenciais, mas que a maioria das famílias necessita para sobreviver. A razão é fácil de entender e passa pela elevada dependência de bens importados e também pelo aumento da inflação com o desenrolar da guerra na Ucrânia.

A vassalagem prestada às grandes empresas, nomeadamente na área do retalho, é imagem de marca de Costa desde o célebre pedido de desculpas a António Saraiva

Sobre isto, muito haveria a dizer, sobretudo em relação ao desmantelamento do aparelho produtivo nacional no “reinado” de Cavaco Silva, mas a verdade é que António Costa não quer, nem nunca quis, defender quem tem de ir ao supermercado todas as semanas.

A vassalagem prestada às grandes empresas, nomeadamente na área do retalho, é imagem de marca de Costa desde o célebre pedido de desculpas a António Saraiva, patrão dos patrões. E, na verdade, haveria muito que se poderia fazer.

Assobia para o lado

A canção de Carlão assenta que nem uma luva a este Executivo recém-empossado. Costa sempre fez orelhas moucas a mudanças de fundo e manter a mesma taxa de IVA herdada da troika – 23%, uma das mais elevadas da União Europeia - sempre foi assunto tabu. Taxar quem vai ao talho ou compra café é bem mais fácil – e cómodo - do que incomodar os lucros estratosféricos das EDPs desta vida.

Mas o IVA é apenas um dos problemas. Foi preciso o gasóleo ultrapassar a barreira dos 2 euros para o Governo aceder finalmente a baixar (um pouco) o ISP – Imposto Sobre os produtos Petrolíferos e energéticos.

Se baixar IVA e ISP eram medidas evidentes – e há tanto tempo necessárias -, outras há que mereciam, no mínimo, um pouco de atenção. Se o Governo de Costa foi lesto nos lay-off e no apoio a multinacionais no início da pandemia, está a demorar uma eternidade a dar atenção aos consumidores portugueses. A história do burro e do Ferrari faria hoje António Costa corar de vergonha, pelo menos no que a apoios às famílias diz respeito.

Basta atentar que uma botija de gás propano de 45 quilos custava, há cerca de um ano, uma média de 94 euros e hoje já ninguém compra a mesma botija por menos de 115. O aumento do custo da eletricidade é outro exemplo gritante. Ora, se as famílias não podem usar nem gás nem eletricidade para aquecer as suas casas, resta ao Executivo fazer como a célebre tirada de Assunção Cristas: “rezar” para que o verão venha depressa.

Faria obviamente sentido apoiar a compra de gás e eletricidade numa hora negra como esta. Faria e faz. Faria obviamente sentido limitar as margens de lucro das grandes superfícies comerciais, bem como das elétricas. E isto apenas do lado da despesa. Ora, vamos à receita então, que é como quem diz, aos salários.

É uma verdade lapaliciana que os portugueses vivem mal porque ganham mal. Mas porque ganham mal?

Porque ganhamos mal? Follow me

Se o salário mínimo até tem aumentado de forma razoável, muito por pressão da esquerda parlamentar, já o salário médio permanece imutável, quase gémeo do seu irmão mais novo. E porquê?

Aproxima-se uma tempestade perfeita: a inflação, que será combatida com o aumento das taxas de juro, asfixiando as já sobre endividadas famílias portuguesas, aliada à incerteza provocada pelo decorrer de uma guerra insana e a um Governo que não tem preocupações para com os mais fracos

Primeiro, porque as tabelas da função pública, que servem de referência ao privado, estão estagnadas há décadas. É urgente, não, é vital, revê-las com urgência. Segundo, porque a velha máxima liberal de que quanto mais as empresas lucrarem melhor serão os salários dos seus trabalhadores é mentira.

Reduzir IRC não faz com que as empresas paguem melhor aos seus empregados, faz apenas com que distribuam mais lucros aos seus acionistas. Talvez não fosse má ideia implementar a medida, em tempos proposta pelo Bloco, de limitar a diferença salarial entre o vencimento mais baixo e o mais alto dentro de cada empresa. Mas isso não, ai jesus, que é radical!

Então, ganhamos mal porque as empresas são muito tributadas? Puro engano. Até porque as maiores nem sequer têm sede fiscal no nosso país e são tributadas na Holanda, na Irlanda ou noutro país mais “amigo do investimento”.

Ganhamos mal porque os sucessivos governos que passaram pelo país insistiram em tornar o país “competitivo” pelos baixos salários, até para quem tem elevadas qualificações. Temos uma economia baseada em vencimentos de miséria e condições de trabalho, muitas vezes, dignas de um filme de Charlie Chaplin.

E é por isso que o Governo de Costa não quer mexer na lei laboral e prefere demitir-se a aceitar medidas que belisquem esta “competitividade” que tanto trabalho deu a criar e que tão bem faz aos portugueses.

É por isso também que o Executivo insiste em manter inertes as carreiras na função pública. Isto faz com que muitos funcionários do Estado ganhem hoje, na prática, bem menos do que há 20 anos atrás. E é por isso que o desdobramento dos escalões do IRS é outro assunto tabu para a maioria PS, que insiste em manter as taxas herdadas do tempo da troika.

Que o digam muitas farmácias de Lisboa e arredores, obrigadas a ressuscitar o velho “livro de fiado” porque há quem tenha de escolher qual o medicamento dos três que necessita que consegue comprar. E em que altura do mês o pode pagar.

Aproxima-se uma tempestade perfeita: a inflação, que será combatida com o aumento das taxas de juro, asfixiando as já sobre endividadas famílias portuguesas, aliada à incerteza provocada pelo decorrer de uma guerra insana e a um Governo que não tem preocupações para com os mais fracos pode trazer consequências imprevisíveis. E isso não augura nada de bom.

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Jornalista
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