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Ninguém ouve António Guterres

O secretário-geral da ONU disse em Londres que se está a agravar o desinteresse dos governos pelos seus compromissos climáticos e que estamos mais longe dos modestos objetivos do Acordo de Paris.

Foi em Londres que falou do tema e ninguém parece ter ouvido o secretário-geral da ONU. Disse ele que se está a agravar o desinteresse dos governos pelos seus compromissos climáticos e que estamos mais longe dos modestos objetivos do Acordo de Paris. Os dados são eloquentes: em 2021 as emissões mundiais de gases com efeito estufa aumentaram 6%, o uso do carvão bateu o seu recorde e, se projetarmos todos os compromissos nacionais para a década, teremos mais 14% de emissões. Mesmo que estes compromissos fossem cumpridos — e não estão a ser — a limitação do aumento médio da temperatura a mais 2°C do que na época pré-industrial não será alcançada pelos 196 países que a assinaram. “Não há forma amável de o dizer”, concluiu Guterres, a política ambiental “está em cuidados intensivos” e “somos sonâmbulos a caminho da catástrofe”. E, se em 2022 as políticas ambientais são atropeladas pela guerra e pela crise energética que desencadeia, mais longe ficamos das metas de Paris.

A invasão da Ucrânia é, só por si, uma destruição ambiental, além da tragédia humana. Mas esta guerra tem outra particularidade, por envolver um grande exportador de combustíveis, afetando o seu preço. Algumas das respostas têm sido o relançamento da produção elétrica em centrais a carvão, o adiamento de medidas antiemissões, a continuidade de centrais nucleares e a importação de gás dos EUA para a Europa, com maiores custos e efeitos ambientais. E, sobretudo, a emergência da guerra é usada para justificar exceções aos compromissos anteriores. Sonâmbulos a caminho do desastre, disse Guterres. Ninguém o ouviu

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 25 de março de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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