Pela Paz sem mas

porJosé Manuel Pureza

15 de March 2022 - 14:12
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Sobre esta guerra, o que abunda é um conhecimento que explica mas não muda, que justifica mas não propõe, que se põe a adivinhar mas não antecipa. O mundo precisa com urgência de outros discursos para outras práticas que derrotem a política da guerra.

Parafraseemos uma frase sábia: os comentadores têm apenas interpretado a guerra de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-la. Sobre esta guerra, o que abunda é um conhecimento que explica mas não muda, que justifica mas não propõe, que se põe a adivinhar mas não antecipa. É um conhecimento cujo único compromisso – ora mais tímido, ora mais assumido – é com o combate à guerra com mais guerra e não com a abertura corajosa de caminhos de paz. E o que a humanidade precisa é de transformar urgentemente esta guerra , pondo a paz no centro do combate.

Os discursos que abundam guiam-se por um de dois padrões. O primeiro é o do campismo. Não me interpretem mal, não me estou a referir a práticas de lazer, mas sim a uma leitura tradicional da política internacional de acordo com a qual, tudo se resume a um jogo entre potências, cada uma com o seu campo (é daqui que tiro a expressão ‘campismo’) de influência intocável pelas outras. É o discurso que só vê expansão da NATO como causa desta guerra e desvaloriza o imperialismo russo. O segundo padrão é o que recupera a ideia de ‘hemisfério das democracias’, tão cultivada na Guerra Fria. Para este discurso, o que está em causa é um ataque ao ‘ocidente’, ao seu ‘modo de vida’ e aos seus ‘valores’. É o discurso que só vê desmedida e tresloucada ambição czarista como causa da guerra e desvaloriza o imperialismo norte-americano materializado no conceito estratégico da NATO do pós-Guerra Fria.

Ambos os discursos estão carregados de silêncios. Saliento dois.

O primeiro é o silêncio sobre o conhecimento e a prática acumulados ao longo de décadas – sobretudo no quadro de organizações como a ONU ou a OSCE – em matéria de construção da paz. Confunde-se levianamente construção da paz com apaziguamento para estigmatizar como reencarnações de Chamberlain todos os que não alinham o seu raciocínio com a política da guerra. O silêncio da ONU, apenas interrompido com a resolução condenatória da invasão russa por esmagadora maioria, é ensurdecedor. Mas mais ensurdecedor é o silêncio sobre a ONU, sobre as suas capacidades de mediação, de interposição e de solução pacífica de controvérsias. O desperdício destas potencialidades, apesar de todas as suas fragilidades, é uma arma de guerra.

O segundo silêncio é o que cala a explicação da exacerbação dos nacionalismos russo ucraniano como sublimações da profunda degradação da condição socioeconómica dos seus povos nas últimas décadas. A Ucrânia, depois de um programa de terapia de choque liberal, tornou-se no segundo pais com maior dívida para com o FMI e com um aumento exponencial da pobreza, das desigualdades e da corrupção. Trajeto idêntico ao percorrido pela Rússia: colapso do PIB (hoje menor que o de Itália) e do rublo, afunilamento da especialização económica na exportação de petróleo e gás, implosão dos serviços públicos. E, em ambos os países, dinâmicas de acumulação selvagem e de predação dos anteriores bens públicos por burguesias nacionais mafiosas. O nacionalismo inflamado e guerreiro é invariavelmente um dispositivo de mobilização para casos destes. Assim é neste caso também.

O mundo precisa com urgência de outros discursos para outras práticas que derrotem a política da guerra. “Diante da barbárie da morte de crianças, de inocentes e civis indefesos, não há razões estratégicas que se mantenham de pé. Há apenas que parar a inaceitável agressão armada, antes que reduza as cidades a cemitérios”, palavras desassombradas de Francisco, o Papa. É preciso um grande movimento de opinião para fazer esta exigência pela paz, contra a barbárie da guerra. Pela paz, sem mas.

José Manuel Pureza
Sobre o/a autor(a)

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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