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O(s) Imperialismo(s) e a Guerra Rússia-Ucrânia

As exigências pelo fim da guerra e o regresso à paz passam pelo combate à crescente militarização, pela condenação da expansão do cordão de bases da NATO ao longo das fronteiras da Federação Russa.

O imperialismo, na sua definição corrente, é uma política de domínio territorial, cultural e económico de uma nação dominante sobre outras nações. Na Antiguidade encontramos como primeiros exemplos de imperialismo como política de expansão territorial o Egito Antigo (Estado Hitita), a Macedónia de Alexandre, a Grécia e o Império Romano. Na idade Média sobressaíram como grandes potências imperialistas o Islão e o Império Turco. A partir do Século XVI, com os Descobrimentos, o imperialismo europeu afirmou a sua força ao dominar muitos países e povos, em particular em África e na Ásia.

Os países imperialistas procuravam obter matérias-primas, mão-de-obra barata e mercados consumidores. Uma das características dessas potências era que o seu domínio sobre outros países buscava a sua justificação sobre três premissas: o etnocentrismo, que apresentava a superioridade de alguns povos sobre outros; o darwinismo social, uma interpretação equivocada da teoria da evolução, procurando explicar o poder dos mais fortes sobre os mais fracos devido à seleção natural; o racismo, que defendia que os humanos são divididos em raças e que uma raça é superior às outras.

Nos finais do século XIX os países imperialistas lançaram-se numa corrida pela conquista global, o que acabará por desencadear a rivalidade entre eles e que foi uma das principais causas da I Guerra Mundial. Começava assim uma nova era do imperialismo, bem definido por Lenine como a rivalidade entre as várias grandes potências com vista à hegemonia mundial. Com a vitória dos Aliados na guerra, os E. U. A. reforçam a sua influência e ascensão imperialista na Europa, enquanto outros impérios colapsaram – o alemão, o austro-húngaro, o russo e o turco, conhecido como império otomano. Há que ter em conta que o conceito de imperialismo americano surgiu no final do século XIX quando os E. U. A. venceram a Guerra Mexicano-Americana, juntando assim ao seu território os Estados do Texas, Novo México, Califórnia e Arizona. Nesta altura, os E. U. A. apresentavam uma clara política de expansão imperialista, tendo o presidente Theodore Roosevelt encorajado a expansão em direção às Caraíbas e ao Pacífico, com destaque para a conquista de Cuba e das Filipinas aos espanhóis.

Após a I Guerra Mundial assiste-se à feroz luta pela conquista de mercados e à ascensão de um novo tipo de imperialismo – o imperialismo ideológico e de classes e que foi uma das causas da II Guerra Mundial. O expoente máximo deste imperialismo foi o III Reich germânico de Hitler. Entre algumas das consequências da guerra temos a queda dos impérios hitleriano e japonês, a perda de força do imperialismo colonial europeu, fruto da libertação das antigas colónias e o predomínio da influência imperialista económica e política dos E. U. A. sobre o resto do mundo.

Após o final da guerra e, mais concretamente, com a nova liderança soviética, a partir de 1953, com Nikita Khrushchev, assiste-se ao aparecimento e expansão do novo imperialismo soviético, com destaque para a invasão da Hungria, em 1956, a invasão da Checoslováquia, em 1968, a influência sobre o regime angolano com a eclosão da guerra civil, em 1975, e a invasão do Afeganistão, em 1979. É certo que a U.R.S.S. através de financiamentos, armas e instrutores acabou por ter um papel relevante na libertação dos povos coloniais. No entanto, com a independência de novos países os soviéticos acabavam por dominar politicamente os seus governos exercendo uma política de saque e exploração dos recursos desses novos países. O imperialismo soviético chegou ao fim com a queda e a dissolução da U.R.S.S em 1991.

A partir de 1991 os E.U.A., que no período da “guerra fria” rivalizavam com a União Soviética pela hegemonia imperialista mundial, praticando o “equilíbrio pelo terror”, visto serem as duas grandes potências nucleares, passaram a dominar o mundo de forma unipolar. A sua primeira ação belicista, através da NATO, foi durante a guerra da Jugoslávia em 1999, cuja operação visava deter os abusos dos direitos humanos no Kosovo. Os ataques aéreos da “Operação Força Aliada” que duraram de 24 de março a 10 de junho atingiram duramente as cidades sérvias de Belgrado e Novi Sad, levando à morte de centenas de civis inocentes e à destruição da infraestura civil e militar da região. Foi a primeira vez que a NATO usou a força militar sem a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Com ou sem Nato, o poderio do império americano vai continuar a avançar com a invasão do Afeganistão em 2001, após os ataques do 11 de setembro, onde mais de 200 mil civis foram mortos durante a guerra, e com a invasão e ocupação do Iraque, em 2003, na chamada “Segunda Guerra do Golfo”. Esta Guerra do Iraque, em que os E.U.A. lideraram uma coalizão militar multinacional baseou-se numa mentira, de que o regime de Saddam Hussein dispunha de armas de destruição maciça. A operação “Choque e Pavor” que consistiu numa pesada campanha de bombardeamentos aéreos sobre Bagdad e outras principais cidades iraquianas conduziu ao colapso do governo Baathista e ao domínio do país. Com a retirada de grande parte das tropas americanas em 2011 ficou um rasto de destruição colossal e a morte de mais de meio milhão de pessoas, grande parte civis. Em 2011 os E.U.A. e a NATO intervieram militarmente na Líbia contra o regime de Kadhafi e no apoio aos rebeldes. As vagas de bombardeamentos destruíram um dos países mais avançados de África e entregaram-no aos senhores da guerra que ainda hoje disputam o território entre si. O imperialismo norte-americano dominava assim, de forma unilateral, a geopolítica intervencionista e a economia a nível global.

Nas últimas décadas novos imperialismos iniciaram a sua ascensão, a começar pela China, a qual já é a primeira economia a nível mundial, ultrapassando os próprios E.U.A. Nos dias de hoje a China exerce uma forte influência comercial e económica não só no mundo asiático, mas também expandindo-a na Europa, no continente africano, América Central e Caraíbas. É curioso notar que estas duas últimas regiões que foram alvo da “diplomacia do dólar” no início do século XX, tornaram-se alvo da “diplomacia do yuan” no século XXI. Com “a nova rota da seda”, denominada Iniciativa Cintura e Estrada, dominada pela China, os E.U.A serão pressionados a fazer valer as suas alianças construídas na “guerra fria” e novos conflitos podem ressurgir. A nível militar, a China nuclear é uma das maiores potências a nível mundial e os seus “apetites imperialistas” já se fizeram notar com provocações a vários países no Pacífico. A conquista da ilha separatista de Taiwan pode conduzir a uma confrontação militar direta com os E.U.A.

Um outro novo imperialismo em ascensão é o Russo e que agora está a mostrar a suas garras hediondas com a invasão e a guerra na Ucrânia. Já antes, em 2008, Putin invadiu e levou a guerra à Geórgia, conduzindo à ocupação com tropas russas das regiões separatistas da Abkázia e da Ossétia do Sul. Relembre-se que as topas russas mantêm a sua presença na Transnístria, ou República Moldávia Peridniestriana, que se separou da Moldávia em 1990 e que no referendo 2006 aponta para a integração na Federação Russa. Em 2014, com o pretexto de apoiar as populações russófonas na Ucrânia, Putin auxiliou militarmente os separatistas das regiões de Donetsk e Lugansk, no Donbass e anexou a Crimeia. A máquina belicista do novo imperialismo russo segurou no poder o regime do ditador Bashar al-Assad na Síria e, através do Grupo Wagner, um grupo paramilitar de mercenários de origem russa, Putin através da sua utilização tem aumentado o seu poder em várias partes do mundo, não só na Ucrânia e na Síria, mas também, por exemplo, na Líbia, Moçambique e República Centro-Africana. Os interesses são igualmente de natureza económica, pois neste último país a Rússia e o Grupo Wagner, ao seu serviço, mantêm no poder o Presidente Faustin-Archange Touadéra a troco do controlo de várias minas de diamantes e de exploração de outros recursos naturais do país, que se debate numa violenta guerra civil desde 2012.

Agora a Rússia imperial de Putin invadiu a Ucrânia, uma violação flagrante do direito internacional. A agressão militar russa é inaceitável e deve ser condenada por todo o mundo. Trata-se de levar a guerra e a ocupação a um país soberano, reconhecido pela ONU. Perante esta invasão por uma potência imperial todas as forças de esquerda devem condená-la firmemente, colocando-se ao lado da integridade territorial e da independência da Ucrânia. O que não significa a identificação com o governo respetivo tendo em conta o golpe de Estado de 2014 protagonizado por forças da extrema-direita, responsáveis pelo incêndio da sede dos sindicatos em Odessa onde pereceram cerca de 40 pessoas.

Para combater o agravamento das tensões e o fim da guerra não chega a imposição de sanções ao sistema financeiro da Rússia e dos seus oligarcas. A escalada da guerra, como alguns pretendem, não vai proteger o povo ucraniano e nem vai proteger a Europa e os seus povos, bem pelo contrário. O reforço das forças da NATO não vai dissuadir nada, o que vai é provocar a escalada da guerra e que poderá ser uma guerra nuclear. É preciso proteger as populações e parar a guerra já, aumentar as sanções à oligarquia russa e apostar na via diplomática, sentando à mesa negocial as partes em conflito.

As exigências pelo fim da guerra e o regresso à paz passam pelo combate à crescente militarização, pela condenação da expansão do cordão de bases da NATO ao longo das fronteiras da Federação Russa, pelo respeito pelo princípio da indivisibilidade da segurança e pela defesa de um estatuto de neutralidade da Ucrânia análogo ao que vigora com a Finlândia. A expansão da NATO para Leste – recentemente aderiram à Aliança o Montenegro e a Macedónia do Norte perfazendo no seu conjunto 30 países – e que levaria à integração da Ucrânia, Geórgia e Moldávia, ex-repúblicas soviéticas, considerada uma “linha vermelha” para Putin, forneceu a este o pretexto ideal para a intervenção imperial no país vizinho.

O que se impõe é a retirada de Portugal da NATO e a sua dissolução, considerada o braço armado da guerra do imperialismo norte-americano e dos seus satélites canadiano e europeus. Ao contrário do que alguns nos querem dar a entender a Nato não é nenhuma organização defensiva. Que o digam as suas intervenções ofensivas que provocaram destruição e morte na ex-Jugoslávia, Afeganistão, Iraque e Líbia. A NATO não representa qualquer saída para os povos. O povo ucraniano foi apanhado como refém entre a NATO e Putin.

No quadro da NATO e como resposta à invasão da Ucrânia pela Rússia, Portugal vai mobilizar e colocar à disposição da Aliança 1.521 militares, a enviar para a Roménia, integrados em duas forças: a primeira, de reação muito rápida (prontidão de 7 dias), envolvendo 1.049 militares, 1 navio, 162 viaturas táticas e 7 aeronaves, e uma segunda força de reforço (pronta em 30 dias), totalizando 472 militares, 2 navios e 36 viaturas táticas. Trata-se de uma grave irresponsabilidade por parte do governo português, pois esta iniciativa não vai contribuir para qualquer dissuasão, mas sim para o agravamento da tensão militar.

Com a guerra da Ucrânia o mundo vai deixar de ser o que era até aqui. Putin não vai e nem pode restabelecer a antiga URSS, pois não é o herdeiro da Revolução de outubro. Ele é o herdeiro dos métodos autocráticos do estalinismo e não está a defender as populações russófonas do Donbass, nem o povo russo. O que está a defender são os interesses da camarilha de oligarcas e da qual é o chefe. Nesta fuga para a frente Putin e os círculos oligárquicos que pululam à sua volta inspiram-se na velha “alma russa”, na herança cultural, social e religiosa da Grande Rússia, a Grã-Rússia imperial de matriz czarista, assente no neoconservadorismo autocrático rendido ao neoliberalismo económico e procurando responder à arrogância ocidental. A nova Rússia imperial de Putin está a tirar partido da crise de dominação do imperialismo norte-americano e cujo último ato foi a derrota dos E.U.A. e da NATO no Afeganistão no verão passado, o que prefigura a passagem a uma nova etapa na crise de dominação política do imperialismo. Agora não se trata de uma guerra de ideologias, mas de interesses, da necessidade de aceder a um bolo planetário, exigindo na totalidade a parte colonial, enquanto a outra parte pretende igualmente chegar, o que se traduzirá no confronto entre unipolaridade e multipolaridade e que a China não tardará em se juntar.

O momento que o mundo atravessa representa uma rutura violenta com o passado recente, cujo poder se apresentava tendencialmente globalista. No fundo, representa a quebra da unipolaridade E.U.A./NATO/União Europeia através da ascensão de mais duas potências, de mais dois novos imperialismos, o russo e o chinês, cada vez mais fortes e capazes de rivalizar na disputa de matérias-primas, de vias de comunicação e mecanismos de integração regionais e mesmo continentais, e de desenvolvimento tecnológico e militar.

Esperemos que a invasão e a guerra na Ucrânia terminem breve e que não sejam o prelúdio da III Guerra Mundial, de consequências inimagináveis. No presente momento o que se impõe é a paragem dos bombardeamentos e a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia. Há que recrudescer a luta global contra a guerra que o imperialismo gera, há que promover a fraternidade entre os povos.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em História Contemporânea.
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