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A inflação não é só o que parece

Um dos instrumentos eficientes para reduzir a inflação é impor um controlo de preços a empresas com poder de mercado. Basta os Governos quererem.

Têm sido apresentadas variadas explicações para o surto inflacionário cuja dimensão, como Lagarde reconheceu, tem sido uma surpresa (5,1% na zona euro em janeiro). Duas são conjunturais: haveria um consumo reprimido durante a pandemia, com um excesso de poupança acentuado pela incerteza e pelas restrições aos movimentos e viagens, desembocando numa corrida às lojas, depois de um período em que a produção foi reduzida pelas quarentenas; além disso, os engarrafamentos nos sistemas de transporte marítimo a partir da China, cujos custos quadruplicaram, também agravariam a subida dos preços das mercadorias. Duas outras explicações também sublinham razões momentâneas, embora estas se possam prolongar. É o caso do aumento de alguns preços, como o do petróleo (os conflitos no Médio Oriente ou na fronteira russa não permitirão a descida do preço da energia), e do crescimento dos gastos orçamentais em medidas de emergência (em despesas sociais, como também no preço especulativo das vacinas), além das medidas de expansão monetária, lançando liquidez nas economias. Em todos estes casos, funcionaria a tensão entre a oferta e a procura, mesmo que intermediada por decisões institucionais.

A partir daqui, voltamos à agenda do debate que se poderia antecipar, com a pressão para a elevação dos juros, para corrigir a inflação. Seria vantajoso para a banca comercial, ampliando a sua margem, mas arriscado para o setor financeiro, empurrado para aventuras. Sabendo-o, Lagarde não quer precipitar-se, alegando razoavelmente que, neste início da recuperação, a subida dos juros provocaria mais danos do que benefícios. No entanto, qualquer que seja a opção de curto prazo do BCE, vivemos com dois problemas que se vão agravar. O primeiro é que, nas próximas décadas, precisaremos de uma nova vaga de investimento estrutural no contexto da revolução energética, para reorganizar os sistemas de transportes e a produção, e de um maior financiamento de serviços sociais, considerando, por exemplo, os custos do envelhecimento. Tudo isso vai criar inflação. O segundo problema são as ameaças geoestratégicas, como o bloqueio dos sistemas de pagamentos interbancários, na medida em que o Swift seja usado como a última arma para destruir economias, como a russa. Seria o princípio do caos.

Tudo isso tem sido discutido. No entanto, há outro fator inflacionário que não pode ser ignorado, a determinação dos preços por empresas que têm poder de mercado. Um estudo do FMI sobre 900 mil empresas de 27 países descobriu que, de 2000 a 2017, as 10% mais poderosas tinham imposto um aumento de 30% dos seus preços, contra a estagnação dos restantes. O poder conta mesmo. É por isso que a McDonald’s, cujos lucros cresceram 59% no ano passado, sobe os preços. O mesmo faz a Starbucks, cujos lucros são mais 31%, e outras empresas. Assim sendo, um dos instrumentos eficientes para reduzir a inflação é impor um controlo de preços a empresas com poder de mercado. Basta os Governos quererem.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 18 de fevereiro de 2022

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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