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O perigo está no ar

O crescimento dos preços da energia e a recuperação do consumo reprimido nos últimos dois anos gerou inflação. Já nos tínhamos desabituado disto nas últimas duas décadas.

O crescimento dos preços da energia e a recuperação do consumo reprimido nos últimos dois anos gerou inflação, agravada entretanto pelos engarrafamentos nos sistemas de transportes mundiais e de fornecimento de mercadorias chinesas. Já nos tínhamos desabituado disto nas últimas duas décadas. Ou seja, quem tem hoje 30 anos não se lembra de tal coisa e quem já percorreu mais anos pode ter-se esquecido da inflação. A resposta, algo desconexa, está prisioneira de uma dúvida, a de saber se este processo é momentâneo e reversível ou se é permanente. De facto, as opiniões sobre uma ou outra hipótese estão menos determinadas pela realidade e mais pelas escolhas de política que são propostas nos bancos centrais. Estamos a ser governados pela ideologia e ela leva-nos para a pior das alternativas, a combinação perigosa de recuperar as regras orçamentais restritivas e subir as taxas de juro, impondo um travão quando a recuperação ainda é frágil.

Uma das consequências desse travão será a turbulência nos mercados financeiros, sabendo que, se os juros aumentam, os preços dos ativos especulativos baixa e a corrida a alternativas de maior risco acentua-se. Ora, um dos novos fatores que agrava estes riscos é o clima. Escrevia o “The Economist”, em junho deste ano, que, se o preço da emissão de uma tonelada de CO2 se estabilizar nos 75 dólares, o que considerava necessário para adaptar a economia à necessária transição energética, pode haver uma redução do lucro antes de impostos de 8% no caso das empresas do S&P500 nos Estados Unidos e de 12% no caso das registadas no EuroStoxx600, na Europa. Do mesmo modo, outros custos de mitigação de crises ambientais podem ter um efeito comparável. Acresce que há muitas empresas que perdem com a crise climática e poucas que ganham: entre as 500 maiores empresas norte-americanas registadas no índice S&P500 só três produzem energias renováveis. O sistema económico não responde à necessidade de alterar os padrões produtivos, falta investimento.

Um alerta ainda mais preocupante foi sugerido pelo relatório “Carbon Tracker 2021”, elaborado por um think tank londrino conhecido pelo seu trabalho sobre os riscos climáticos. O documento regista que títulos no valor corrente de 18 biliões de dólares e obrigações que chegam a oito biliões, além de outras dívidas, poderiam ser desvalorizados pelo impacto dos custos climáticos (a que acresce o efeito da subida dos juros). O mercado cujo colapso provocou o pânico financeiro de 2008, a crise do subprime, era de um bilião de dólares, uma pequena parcela do que pode ser o efeito de contaminação pelo perigo climático. É só fazer as contas, como dizia o outro.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 18 de dezembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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