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O ano do assalto ao Capitólio

Nos EUA, a sede do poder legislativo foi invadida em janeiro por apoiantes de Trump que tentavam impedir a certificação da vitória de Biden. O rescaldo do caso que causou cinco mortes ocupou todo o ano. Desde a razão pela qual isto foi possível até às ligações perigosas da equipa de Trump com os manifestantes.
Invasão do Capitólio. Foto de Tyler Merbler/Flickr.
Invasão do Capitólio. Foto de Tyler Merbler/Flickr.

2021 praticamente começou com um ataque sem precedentes à sede do poder legislativo norte-americano. Logo a 6 de janeiro, o Capitólio, o edifício onde se reúne o Senado e a Câmara dos Representantes dos EUA, foi invadido por apoiantes de Donald Trump que queriam impedir a ratificação do resultado das eleições presidenciais de novembro anterior que este perdera.

Trump começou a preparar o cenário para as alegações de fraude meses das eleições, lançando suspeitas sobre os votos antecipados. A seguir à derrota face a Biden, mesmo não tendo conseguido criar uma narrativa que convencesse para além da sua base de apoio, cavalgou sobre a questão e avançou com pedidos de recontagem. O próprio multimilionário fez pressão para que os resultados fossem alterados. A 3 de janeiro, o Washington Post noticiava mesmo um telefonema de Trump a Brad Raffensperger, secretário de estado da Geórgia, em que aquele tentava explicitamente que este interviesse para arranjar os 11.780 votos que alterariam o resultado eleitoral naquele estado. Para além das recontagens, houve inúmeros processos judiciais. Foram sendo sucessivamente derrotados e até um Supremo Tribunal de maioria conservadora rejeitou unanimemente as suas alegações.

Perdida a frente jurídica, a ratificação dos resultados pelo Congresso parecia ser apenas uma burocracia mas o ex-presidente e os seus apoiantes continuaram a não conceder. Na Câmara dos Representantes, Mo Brooks anunciou que iria lançar uma objeção à certificação do resultado. O mesmo fez o senador Josh Hawley.

Ao mesmo tempo, Trump não só apelou à participação no protesto marcado para o parque Ellipse, em Washington, no dia em que essa votação seria feita, como nele fez mais um discurso incendiário em que apelou aos participantes a ir ao Capitólio tomar o seu país de volta e a “lutar como o inferno”. Ao começo da tarde, estes assumiram as suas palavras literalmente e começaram a invadir o edifício do Congresso numa ação que durou várias horas, deixou um rasto de destruição e cinco mortes. Para além disso, engenhos explosivos colocados na zona e nas sedes dos Comités Nacionais dos Partidos Republicano e Democrata, foram desarmados e não chegaram a rebentar.

Mas a invasão não surtiu o efeito desejado. O que estava a acontecer rapidamente foi caracterizado como uma tentativa de (auto)golpe de Estado e causou forte consternação pública. Finda a invasão, acabaram por não avançar as tentativas de rejeição do processo no Congresso. O último passo formal, a certificação do vice-presidente Biden, chegou já de madrugada. Do púlpito envidraçado do comício de horas antes, Trump apelara ao vice-presidente Mike Pence para não o fazer. Apesar deste constitucionalmente não poder ter seguido outro caminho, muitos dos apoiantes do presidente acusaram-no de traição.

Um ano de investigações inacabadas

Os acontecimentos do dia 6 de janeiro foram o começo de investigações e reportagens que tentavam esclarecer os detalhes de como fora possível que, no país conhecido por ser o “polícia do mundo” e que vinha reprimindo fortemente as manifestações do movimento Black Lives Matter, alguns manifestantes tivessem conseguido entrar naquele que deveria ser um dos edifícios mais bem guardados do país.

A Guarda Nacional é acusada de ter chegado tarde, depois dos mal equipados agentes da Polícia do Capitólio terem pedido reforços, o primeiro pedido dos quais recusado. E o Pentágono demorou quase três horas desde o início do ataque a reagir, nomeadamente a alterar as regras que tinham sido estabelecidas previamente e que impediam por exemplo o uso equipamento anti-motim naquele dia.

Apesar das ameaças de violência serem explícitas, os responsáveis de segurança diziam que esta não seria expetável. Os guardas destacados antes estavam dedicados sobretudo ao controlo de tráfego.

Não foi a única polémica resultante da ação policial naquele dia. Depois de reocupado o Capitólio e com mortes já confirmadas, a muitos dos assaltantes que tinham tentado pela força subverter o resultado das eleições foi permitida a saída pacífica sem serem detidos. Isto para além de pelo menos treze dos invasores serem agentes policiais e de alguns outros que deveriam ter protegido o edifício terem permitido a sua vandalização.

O caso gerou imediatamente demissões na equipa do presidente e várias críticas dentro do Partido Republicano como as de Mitt Romney. Mas este continuou largamente a apoiá-lo como se mostra pelo processo de destituição lançado por Nancy Pelosi apesar de Trump estar em final de mandato. Em fevereiro, apenas sete senadores republicanos votaram na proposta que acabou por não obter a maioria de dois terços de que precisava para ser aprovada.

Outro efeito da invasão do Capitólio foi o fim da presença de Trump no Twitter. A influente conta com 88 milhões de seguidores foi primeiro suspensa temporariamente por doze horas quando ele descrevia os assaltantes como “patriotas”. Depois, acabou por ser apagada definitivamente, o que no dia anterior já tinha acontecido com a sua página Facebook.

Os processos judiciais seguiram-se e ainda continuam com 727 indivíduos acusados. Paul Allard Hodgkins tornou-se o primeiro condenado do caso: uma sentença de oito meses de prisão lida em 20 de Julho. Os advogados do governo têm defendido, contudo, penas muito mais pesadas e em vários casos com sucesso, tendo a pena mais pesada até ao momento sido de 63 meses de cadeia.

Para além destes processos, peça essencial na política norte-americana deste ano foi a Comissão de Investigação do Congresso ao caso, constituída em 1 de julho e que já ouviu mais de 250 pessoas. Um órgão boicotado pelos republicanos com exceção de Liz Cheney e Adam Kinzinger. Aliás, esta comissão segue-se à tentativa de formar uma comissão com as duas Câmaras que os republicanos conseguiram travar.

Meadows: as ligações perigosas do pivot de Trump

As ligações entre a cúpula da Casa Branca e os organizadores do protesto foram se tornando mais claras. Em outubro, a revista norte-americana Rolling Stone, revelava que, no âmbito da Comissão de Inquérito, duas testemunhas tinham referido que os organizadores da manifestação haviam participado em “dezenas de reuniões de organização” com membros do Congresso e até dirigentes da Casa Branca durante a preparação desta ação. O próprio Chefe de Pessoal da Casa Branca de Trump, Mark Meadows, foi envolvido e apresentado como estando “100% consciente do que se estava a passar”. Paul Gosar, congressista republicano do Arizona, foi até acusado de nelas ter dado “várias garantias” de um perdão presidencial para os organizadores do protesto numa investigação sobre outro caso, como forma de os instigar à ação.

A trama das ligações continuou a adensar-se e, já em dezembro, foi conhecido que um e-mail de Meadows confirma estas ligações perigosas. Este escreveu, a um destinatário não revelado que, na ocasião, a Guarda Nacional “protegeria os elementos pró-Trump”.

As mensagens do ex-Chefe de Pessoal da Casa Branca indicam ainda outra linha de ação anterior na tentativa de reverter o resultado das urnas. Em algumas delas, Meadows concordava com a ideia de que, nos estados em que os apoiantes de Trump tinham tentado alegar fraude e que eram controlados por republicanos, os órgãos políticos locais deviam nomear “grandes eleitores” diferentes da escolha popular. Recorde-se que as eleições presidenciais dos EUA não são diretas. Cada estado elege um conjunto pré-estabelecido de “grandes eleitores” e são estes que depois elegem o presidente.

Aquele que é um dos assistentes mais próximos de Trump, e que estava com ele enquanto o então presidente se mantinha silencioso durante o ataque, também foi recebendo mensagens nessa altura a recomendar que aquele fizesse uma declaração apaziguadora. Mensagens como as do filho de Trump a dizer que a situação tinha “ido longe demais” e de alguns jornalistas da Fox News como Sean Hannity e Laura Ingraham que escrevia “hey Mark, o presidente precisa de dizer às pessoas no Capitólio para irem para casa. Isto está a prejudicar-nos a todos. Ele está a destruir o seu legado”. O chefe de Estado escolheu continuar em silêncio durante horas.

Meadows terá sem dúvida muito mais informação sobre o que se passou no dia do assalto ao Capitólio mas recusa-se a entregar alguns documentos e a depor, como outros apoiantes de Trump. Entre eles estão o ex-estratega de Trump, Steve Bannon, e um responsável do Departamento de Justiça, Jeffrey Clark.

Estes enfrentam a possibilidade de uma pena de prisão de um ano por desobediência mas a isso foram aconselhados pelos advogados de Trump. Por sua vez, este tem usado todas as táticas legais ao seu alcance, invocando o “privilégio do executivo”, para que a Comissão de Inquérito não tenha acesso às comunicações da Casa Branca dessa altura. A decisão foi remetida ao Supremo Tribunal de Justiça dos EUA depois deste ter perdido nos tribunais de recurso.

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