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Afeganistão: Retirada dos EUA e regresso dos talibãs

Vinte anos após os ataques do 11 de setembro que deram o pretexto à intervenção norte-americana no Afeganistão, os talibãs demoraram poucas semanas a reconquistar o poder.
Combatente talibã ergue a sua bandeira num veículo em Kandahar. Foto de STRINGER/EPA/Lusa.

O ano de 2021 ficará marcado pelo regresso dos talibãs ao poder em Cabul, após vinte anos de mais uma guerra fracassada dos Estados Unidos. No seu primeiro ano de mandato, o presidente Joe Biden manteve o compromisso de retirar as tropas dos EUA do país e na hora da despedida deixou críticas aos líderes políticos que protegeu e ao exército afegão que formou e armou, acusando-os de desistirem de lutar e de assim permitirem o avanço talibã sem resistência digna desse nome.

Em poucas semanas os talibãs tomaram o controlo da maioria das províncias e chegaram a Cabul quando ainda estava em curso a evacuação dos cidadãos estrangeiros. Mas também de muitos afegãos que em desespero acorreram ao aeroporto na esperança de encontrar uma saída do país.

Em meados de agosto, as Nações Unidas calculavam em quase 400 mil o número de pessoas deslocadas na sequência do avanço dos talibãs. A Prémio Nobel da Paz Malala Yousafzai acusava os países ocupantes de terem usado “os afegãos como peões nas suas guerras ideológicas e gananciosas”, deixando-os agora sem qualquer apoio. Bruno Neto, um português que coordena uma missão humanitária no país, falou ao Esquerda.net da incerteza que se vivia então no terreno e do vazio de alternativas que a intervenção militar externa deixou no Afeganistão. E defendia que “não podemos levar a um país os direitos humanos com bombas”.

No início de setembro, o Esquerda.net publicou um dossier sobre a situação afegã e o fim da ocupação, com artigos sobre as características atuais dos talibãs e de outros grupos armados, como o Estado Islâmico Khorasan, responsável por um atentado mortífero no aeroporto durante a evacuação, a perspetiva das feministas afegãs da RAWA, o custo da “guerra ao terror” promovida pelos EUA a partir de 2001, tanto ao nível financeiro como ao nível da perda de direitos civis dos cidadãos norte-americanos, além de análises de Tariq Ali, Gilbert Achcar e Luís Fazenda acerca dos debates que se levantaram a propósito do fracasso da ocupação.

A rapidez da queda do governo afegão e do seu aparelho militar e policial encontrou nova explicação já em novembro nas palavras do antigo ministro das Finanças do país. Afinal, explicou ele à BBC, a maioria dos 300 mil soldados e polícias que constavam nos registos governamentais não existia, pois o número havia sido empolado pelas altas patentes para receberem mais financiamento público. A corrupção era generalizada, apontou o ministro, com os comandantes a não reportarem deserções e mortes de militares, para se apropriarem da remuneração que lhes continuava a ser paga. A par disso, prosseguiu o ex-ministro Khalid Payend, muitos comandantes acumulavam o salário com o suborno dos talibãs e tudo com o conhecimento dos EUA, segundo aponta um relatório do Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão elaborado em 2016.

Sem reconhecimento internacional e alvo de sanções várias, o novo poder em Cabul tem agora uma grave crise humanitária para gerir, com um sistema económico em colapso, a malnutrição a crescer e, como testemunhou em dezembro ao Guardian o diretor do Centro de Saúde Humanitária da Universidade Johns Hopkins e antigo responsável de saúde pública do Alto Coissariado da ONU para os Refugiados, com “seis surtos de doenças em simultâneo: cólera, sarampo, polio, malária e febre de dengue, além da pandemia do coronavírus”.

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Neste dossier:

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António Mexia, Manuel Pinho, José Sócrates e Nunes Correia, então ministro do Ambiente,  durante a cerimónia de apresentação da Barragem de Ribeiradio, em Couto de Esteves, Sever do Vouga, 20 de Fevereiro de 2009. Foto de JOÃO ABREU MIRANDA/LUSA

Um ano entre a borla fiscal nas barragens e os lucros caídos do céu

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