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A geração sem futuro

Temos hoje, com um governo supostamente de esquerda, uma geração sem perspetivas de futuro, que se afunda num mar de precariedade, sem garantia de poder viver num país e exercer a profissão que escolheu com dignidade e liberdade.

Parece relativamente consensual os efeitos que a pandemia teve na saúde mental de todos. Hoje, não pensamos e não agimos da mesma forma que há dois anos atrás. Provavelmente, nunca mais o faremos. Se isso pode ter provocado cisões e alterações substanciais na nossa forma de nos relacionados com o mudo e com os outros, imaginemos o que se passará na cabeça dos mais novos.

Em plena altura de formação de consciências, muitos deles no auge da adolescência, é hoje verdadeiramente imprevisível as consequências que a pandemia terá na constituição do futuro dos nossos jovens.

Privados de grande parte do processo de socialização indispensável a um crescimento saudável, os jovens foram e são as principais vítimas do contexto pandémico e das suas consequências. Quem imaginou algum dia perder alguns dos melhores anos das suas vidas?

Ao gravíssimo problema da falta de socialização no processo de crescimento – e não, os contatos virtuais ou online não são a mesma coisa – juntam-se anos letivos com enormes défices de aprendizagem, onde os prometidos tempos de recuperação não passaram de miragens, com consequências muito graves no percurso escolar, académico e profissional de todos os alunos.

Poder-se-á perguntar: no âmbito de uma crise sem precedentes, algum governo ou governante faria melhor? A pergunta é retórica e não terá nunca uma resposta definitiva, mas há falhas que foram por demais evidentes.

Prioridade à saúde mental dos jovens

Desde logo na polémica questão da entrega dos equipamentos informáticos e nos kits de acesso à Internet, muitos deles ainda, quase um ano depois do confinamento, não estão montados nem a funcionar.

Além dessa falha, consequência dos caprichosos timings dos fundos comunitários a que o Governo por norma recorre, sobretudo na área na Educação, há várias outras que importa referir. Tomemos como exemplo o confinamento dos mais novos.

Não é minimamente aceitável que uma criança ou um jovem continue a ter de ficar de quarentena após contatos de risco, dependendo dos casos, até 14 dias e, por exemplo, um jogador de futebol de alta competição esteja apto a entrar em campo após um simples teste PCR negativo.

Quem defende uma situação como esta ou não tem o mínimo de sensibilidade pedagógica e relativo ao crescimento dos mais jovens ou simplesmente não está a ver bem o quadro todo. A indispensável e insubstituível falta de socialização entre os mais novos é irrecuperável e pode provocar danos impossíveis de prever. A saúde mental dos jovens devia ser hoje uma prioridade nacional.

Um percurso escolar “coxo”

Mas, não só. Além destas questões, a recuperação das aprendizagens é outro óbice ao desenvolvimento e ao futuro da juventude. Não houve as 5 semanas de recuperação das aprendizagens relativas ao ano anterior prometidas pelo Governo e, pior ainda, no final do atual primeiro período, ainda há, segundo dados da Fenprof, 20 a 30 mil alunos sem professores a, pelo menos, uma disciplina.

A situação é particularmente gravosa no distrito de Lisboa, onde ainda há 43% dos horários sem docente atribuído, sendo as disciplinas com mais horários incompletos informática, física e química, português, inglês e matemática.

A situação não é nova e repete-se todos os anos. Mas ninguém pode esperar que um docente venha de Chaves ou de Vila Real de Santo António dar aulas para Lisboa, muitas vezes em horários incompletos, e ter de pagar 800 ou 900 euros de renda para se alojar. Muitos deles ainda tendo de suportar as despesas mensais inerentes ao seu agregado familiar.

O sistema de concursos está ultrapassado e não responde às necessidades atuais e é hoje um dos principais obstáculos à fixação de docentes. Continua por atribuir o indispensável subsídio de deslocação, cada vez mais necessário para garantir a contratação de professores, nomeadamente nas áreas da Grande Lisboa e do Grande Porto. Um subsídio que, por exemplo, os deputados têm desde sempre.

O PS e as “lágrimas de crocodilo”

Por outro lado, a agora premente preocupação do primeiro-ministro para com os jovens que entram no mercado de trabalho soa a lágrimas de crocodilo. Em primeiro lugar, porque o PS se recusa a alterar a legislação laboral imposta pela troika e que, enquanto na oposição, tanto criticava.

Em segundo, porque António Costa leva a concertação social tão a sério que correu a desfazer-se em desculpas aos patrões assim que transpirou que poderia surgir uma qualquer “afronta” ao atual “establishment” laboral.

Em terceiro, porque, apesar de bradar raios e coriscos contra a especulação imobiliária, Costa continua sem esboçar qualquer resposta que possa beliscar os interesses dos fundos imobiliários e da “galinha dos ovos de ouro” que já foi o mercado do turismo.

Temos hoje, com um governo supostamente de esquerda, uma geração sem perspetivas de futuro, que se afunda num mar de precariedade, sem expectativas de sair de casa dos pais antes dos 40 anos, sem esperança de poder constituir e sustentar uma família, sem garantia de poder viver num país e exercer a profissão que escolheu com dignidade e liberdade.

Um cenário que Costa não combateu nem faz questões de fazer. Um quadro negro que está a condenar uma geração ao fracasso, toldando os sonhos e a esperança de ter uma vida feliz no país onde nasceu. Assim seja possível começar a mudar este paradigma na próxima legislatura, sob pena de eliminarmos para sempre o futuro de toda uma geração.

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Jornalista
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