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A Europa ainda vale alguma coisa?

Temos a carinhosa ‘bazuca’ e a recuperação económica, tivemos a compra conjunta de vacinas e, finalmente, temos alternância em Berlim, mas a UE perde peso na política mundial.

Se se ouvirem os autofestejos de Bruxelas, o que aconteceu este ano provou a força da União. Temos a carinhosa ‘bazuca’ e a recuperação económica, tivemos a compra conjunta de vacinas, mesmo que depois se revelassem os interesses escondidos nos contratos, e, finalmente, temos alternância em Berlim. Tudo notícias confortáveis, disfarçando o ‘Brexit’ e a degenerescência antidemocrática na Polónia e Hungria. Então porque é que, à medida que avança a marcha forçada da integração europeia, a UE perde peso na política mundial?

O perigo russo

Uma primeira explicação é a submissão aos EUA por causa do velho perigo moscovita. O refrão é antigo e, a bem dizer, mais absurdo a cada ano que passa. Do ponto de vista económico, a Rússia é somente um país médio: o seu PIB é de 1,4 biliões de dólares, o dos EUA é de 21 e os da China e da UE são 15, em ambos os casos mais de 10 vezes o total do produto russo. A economia da Alemanha, por si só, é quase o triplo da russa, a França e o Reino Unido o dobro, mesmo a Itália a ultrapassa. A ameaça russa não existe em termos económicos e o país só tem capacidade assinalável em alguns domínios tecnológicos. Como se verificou com a pandemia, mesmo tendo produzido a sua própria vacina, a Rússia não alcançou uma taxa de cobertura suficiente para evitar a continuação de riscos massivos.

O perigo seria então a força militar. Mas também aqui ela parece distorcida. O orçamento militar dos Estados Unidos no ano passado foi de 778 mil milhões de dólares, seguido a uma grande distância pela China, que gasta aproximadamente um terço, 252 milhões. Vem depois a Índia, com 72, acima da Rússia, com 61. Os países europeus da NATO gastam três vezes mais em armas do que a Rússia. Se Putin tem capacidade de iniciativa militar, mesmo que limitada à sua área próxima, é porque o seu regime ainda se mobiliza em resposta ao velho fantasma da Guerra Fria, o que é confirmado pelo cerco que Washington lhe impõe, em particular usando um aliado, a Polónia, e um instrumento, o Governo de Kiev. Ao procurar a integração da Ucrânia na NATO, a Casa Branca procura estimular esse confronto e, como se viu, Putin agradece e usa o pretexto. Alguma esquerda e alguma extrema-direita encontram nisto uma razão para apoiar o regime do Kremlin, ignorando ou até saudando a construção da sua oligarquia financeira e o seu autoritarismo so­cial, e esse é outro ganho secundário de Putin. Mas o essencial do que está em causa é a relação europeia, ou seja, entre Berlim e Moscovo.

O alvo Berlim

Quando, em 2011, a central nuclear japonesa de Fukushima entrou em colapso, Merkel, que tinha acabado de prolongar os contratos das suas centrais por mais uma década, mudou de agulha e anunciou o seu fim até 2022. A decisão era ousada. Um dos seus efeitos foi tornar a Alemanha mais dependente da produção de alternativas e da compra de energia. Assim, o preço subiu, forçando o Governo a buscar novas importações e a virar-se para o gás natural, ou seja, para a Rússia. O gasoduto Nord Stream 2 passou a ser o seu grande projeto e não se pouparam esforços para o concretizar depressa, incluin­do a contratação do ex-chanceler social-democrata Schroeder pela empresa russa.

A vítima colateral é a Europa. O planeta está a ser dividido e a Europa não conta

Deste modo, enquanto a França, o Reino Unido ou a China relançam os seus projetos nucleares, usando como justificação o fiasco da Cimeira de Glasgow sobre as alterações climáticas, a Alemanha não tem outra solução que não buscar um sistema de relações internacionais estáveis para importar energia. O objetivo estratégico da Casa Branca é impedi-lo, e essa é a explicação para os sucessivos incidentes de fronteira na Ucrânia, usando também a ajuda inestimável de Lukashenko, com os seus reféns-migrantes. Ora, que a UE dance ao som desta música diz tudo sobre a fragilidade do Governo alemão ao saber que a locomotiva norte-americana acelera contra si. Merkel e Hollande tinham sido, em 2015, os organizadores do Acordo de Minsk para resolver o problema ucraniano, mas a França e a Alemanha aceitam agora, mesmo depois do fracasso afegão, que a NATO tenha a liderança política deste processo. A Europa desistiu.

O perigo chinês

Biden, como os seus antecessores, está a confirmar que é fácil criar instabilidade permanente na fronteira exterior da Alemanha e condicionar a sua política energética. Assim, pode virar-se para o conflito geoestratégico, que é a sua prioridade, na Ásia, que vai definir o século XXI na luta pelos recursos energéticos, minerais, tecnológicos e, portanto, financeiros.

Ao estabelecer o AUKUS, a aliança militar com o Reino Unido e a Austrália, permitindo-se também exibir o seu desprezo pela França, a outra potência militar nuclear, e ao promover agora a Cimeira da Democracia, incluindo Taiwan e ainda outros pilares da democracia, como as Filipinas ou a Polónia, o Presidente norte-americano está a mostrar como pretende intimidar a China: ostentando a espada e usando a palavra. Mas tanto não basta, nem sequer impressiona. Mobilizará também a moeda, o soberano dos soberanos. E aqui entra a cartada russa: ao ameaçar cortar o acesso dos bancos russos ao sistema internacional de pagamentos, como já o fez com o Irão, o recado é para a China, que é o maior investidor mundial fora de portas e que teria muito a perder com o uso do sistema financeiro como arma norte-americana. A vítima colateral é a Europa. O planeta está a ser dividido e a Europa não conta.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 11 de dezembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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